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A mudança de paradigma

Manifestei em recente artigo de opinião a minha preocupação sobre aquele que julgo ser o excessivo protagonismo e peso orçamental que o marketing territorial tem assumido nas políticas publicas autárquicas no concelho de Idanha-a-Nova.

Reafirmo inteiramente este meu pensamento, apesar das críticas que alguns, mais ou menos ajuizadamente, e mais ou menos veladamente, lhe dirigiram. E passo a explicar porque o faço.

Com efeito, entendo que Câmara Municipal não pode nem deve ser transformada numa agência de festas, ou numa agência de marketing, nem o concelho de Idanha-a-Nova pode ser transfigurado num qualquer producto de vendas, ou numa mercadoria. O concelho de Idanha-a-Nova e o seu território são o espaço vital onde residem e onde têm as suas vidas, onde criaram as suas famílias, pessoas reais e concretas, e é para essas pessoas, para esses rostos, para as suas preocupações, para os seus anseios, para as suas inquietações e para os seus problemas, que é necessário olhar, mas olhar com olhos de ver. Afinal, esse é o principal objectivo de uma autarquia local: atender e satisfazer os principais interesses das populações locais. É isso que diz a Constituição da República Portuguesa, no seu artigo 235.º, nº 2, quando impõe às autarquias locais: “a satisfação dos interesses próprios das populações respectivas”. E é justamente para esses interesses, para a dimensão das coisas aparentemente pouco importantes do dia-a-dia da vida das pessoas, que julgo ser necessário prestar maior atenção, porque não só olhando para esses interesses a autarquia cumpre o seu principal propósito, como proporciona bem-estar e qualidade de vida às populações residentes no seu território.

Ora, no meu entendimento, o que faz falta no concelho de Idanha-a-Nova é precisamente um autarca que esteja atento às pequenas coisas que fazem grande o dia-a-dia das populações. Alguém que olhe para a conservação dos caminhos rurais, que levam às hortas e às fazendas, para o estado do pavimento das ruas das aldeias, para a sua limpeza, para o regular e normal funcionamento do abastecimento de água, para a recolha eficiente dos resíduos sólidos, para a manutenção dos equipamentos públicos urbanos, para a manutenção de espaços ajardinados e para o arvoredo urbano, para o cuidado das fontes e do património histórico colectivo, para a conservação dos perímetros urbanos das povoações, para a criação de actividades e espaços para tempos livres e de lazer. Tudo coisas simples, mas que podem fazer toda a diferença.

Mas, para que isso se cumpra, é necessário que esse autarca saia do seu gabinete amiúde, e não apenas nos dias de festas e festivais. É necessário que conheça como ninguém o território sobre o qual diariamente tem de tomar decisões políticas, que percorra as suas estradas, e as ruas sinuosas das suas aldeias, e que, enfim aí, ouça atenta e demoradamente as pessoas que ainda as habitam. Talvez por esse motivo Joaquim Morão tenha sido um autarca tão popular, quando exerceu o seu consulado em Idanha-a-Nova. Porque conhecia os rostos que o espreitavam por detrás dos postigos quando passava; porque dava genuinamente a salvação àqueles que o saudavam, porque sabia o nome próprio das pessoas com quem tratava, e porque falava a linguagem simples e franca das pessoas que o abordavam.

Justamente por isso, eu afirmo que é necessário mudar o paradigma das políticas autárquicas em Idanha-a-Nova. É preciso olhar em primeiro lugar para os que cá estão, para quem ainda habita o território, e para quem escolheu fazer nele a sua vida. E isto

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porque estão esgotadas e não deram fruto todas as campanhas de vendas que consumiram parte substancial dos orçamentos anuais da autarquia. Basta olhar para os números, para compreender toda a falência dessa política que fez da autarquia uma agência de turismo, de vendas e de marketing. A população decresce galopantemente, o comércio e a hotelaria encerram nas aldeias, os cascos urbanos desmoronam, os equipamentos públicos degradam-se, enfim os jovens partem sem promessa de regressar.

Justamente por isso, eu afirmo que é necessário mudar o paradigma das políticas autárquicas em Idanha-a-Nova. Mas não basta mudar de paradigma, é necessário definir áreas prioritárias de actuação. E prioridades de actuação são, no meu entendimento: o apoio á terceira idade; os cuidados médicos; a habitação e o urbanismo; a educação e a juventude, a cultura, os tempos livres e o património, os transportes e as vias de comunicação. Quanto às festas o povo sabe muito bem fazê-las, como tradicional e secularmente tem feito desde tempos imemoriais. Não precisa de uma autarquia para o substituir naquilo que de mais genuíno sabe fazer.

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