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Acidente quase fatal a 300km de Moscovo

Ainda o Raide Macau Lisboa

O estrondo confundiu-se com os trovejos da tempestade que nos acompanhava há horas, mas o som era metálico e parecia mais próximo e mais terreno do que aqueles que iluminavam os céus.

Sim, numa viagem as coisas podem correr muito mal!

Quando embarcamos em algum empreendimento, dificilmente tudo corre como previsto. Depois, depende da sorte, da forma como tentamos ultrapassar as dificuldades e, quando pertencemos a um grupo, da forma como os seus membros reagem. É nessa altura, quando algum acontecimento põe em causa o objetivo a que nos propusemos, que nos apercebemos que a qualquer momento o sonho pode terminar.

Imaginem que se trata de uma viagem preparada ao pormenor durante anos, com colaboração de autoridades de vários países que apoiaram com dinheiros públicos ou de outra forma, além de diversas empresas privadas e, acima de tudo, onde as consequências podiam ser fatais!

Já estávamos em Moscovo há vários dias e começávamos a“entrar em parafuso”, mas finalmente a questão dos vistos para o Igor e o Sergei poderem entrar na Áustria foi resolvida! Na Hungria, logo depois da URSS, não haveria problema, porque não fazia parte da EU, estava ligada à antiga “cortina de ferro” (histórias da Guerra Fria).

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40º Dia, 4 de setembro
A caminho de Oriel, 300 km depois de sairmos de Moscovo

O estrondo confundiu-se com os trovejos da tempestade que nos acompanhava há horas, mas o som era metálico e parecia mais próximo e mais terreno do que aqueles que iluminavam os céus. Chovia torrencialmente e a viagem decorria envolta em bruma cinzenta e ofuscante, o que fortalecia a sensação de algo grave ter acontecido. Momentos antes o Fernando Silva, médico da equipa, avisara através dos intercomunicadores que tinham furado: o nosso Coloane seguia em último, o Macau na frente, estávamos atentos para que o Taipa não desaparecesse, estacionado na berma, de “roda em baixo” perdido naquele desassossego. Até calámos a cassete do Julio Iglesias, que nos acompanhava naquela manhã, não fosse o timbre “delicodoce” inebriar a atenção (quem guiava escolhia a música a ouvir e o espanhol era o preferido do Teixeira, mecânico do raide)

Lá estava o Taipa com pneu vazio, o Filipe e o Song, com ar preocupado, deambulando entre exclamações em língua chinesa, o James procurava atabalhoadamente a câmara de filmar, o Fernando Silva, mala de médico na mão e já dentro do Coloane, pedia ao Teixeira para mudar o pneu do Taipa.

“Alguma coisa aconteceu com o Calado, segue em frente”, ordenou-me quando tomei o volante.

Trinta silenciosos segundos nos separaram até ao Macau, apenas o som das bátegas de chuva espessa se ouvia. Nada e tudo passava pela minha cabeça, não conseguia pensar, a obsessão era que o sonho tinha acabado!

O cenário era aterrador: o Pagero com a frente em pedaços e atravessado na estrada , o António Calado com a cara em sangue apoiava-se no Mário Sin, cinquenta metros à frente os camaradas russos ajudavam os passageiros do pequeno Moskvitch a saírem desse “míssil de fabrico soviético”, que se desfez em sucata ao atingir o Macau que manobrava para inverter a marcha, a fim de dar assistência ao Pagero com o pneu furado.

Acidente quase fatal a 300 km de Moscovo

Eram 10h00 da manhã do dia 4 de Setembro de 1990.

Felizmente nada severo acontecera ao Calado e todos os outros intervenientes, dos dois carros, nada sofreram para além do susto. Agora até dá para parodiar a situação…

Lembra Fernando Silva, no seu estilo galhofeiro:

“O acidente com o Pagero Macau foi um mesmo grande susto… inicialmente! Felizmente não passou disso mesmo e de “lata amolgada” (muito amolgada), além da tal cabeça partida… ou melhor, da “cabeça rasgada”, que não inspirava cuidados especiais, além do tratamento adequado… que foi uma simples sutura! O curativo aplicado ao sinistrado não podia ser mais simples e eficaz…

As maiores dúvidas iniciais estavam relacionadas com a lavagem e desinfeção do ferimento, sobre se devíamos usar água ou vodka… também porque a clínica mais próxima do local onde nos encontrávamos era uma clínica veterinária… destinada sobretudo a bovinos e caprinos! Ultrapassadas todas as dúvidas, o ferimento foi devidamente lavado com soro e água oxigenada e, depois de desinfetado com uma solução apropriada, foi suturado com fio de seda de calibre 3 (um luxo)… se a memória não me atraiçoa, acho que levou cinco pontos, terminando a tarefa com nova desinfeção

No final, levou com um barrete moldado em ligadura esterilizada! Tudo se desenrolou com a valiosa ajuda do Mário Sin, que se comportou como um verdadeiro “ajudante de cirurgião”, mesmo depois de ter emborcado meia garrafa de vodka para ganhar coragem! Ele afirma que foi pouco mais de meia garrafa, mas pareceu-me ter sido muito mais…

Resumindo: nenhum veterinário faria melhor serviço. Saliente-se que o ponto-cruz usado na sutura não destoaria se fosse aplicado em “fino bordado de croché”!

Talvez até o susto inicial tenha sido maior com a queda de dois aventureiros de um “dromedário de duas bossas”, , que em seguida os atropelou, ocorrido três semanas antes em pleno deserto! Enquanto um ficou com dificuldade respiratória durante quase uma semana (será que partiu uma costela?), o outro aventureiro ficou com um “olho à Belenenses, que rapidamente melhorou após algumas massagens diárias com uma pomada milagrosa usada no tratamento de hemorroides. De certeza que não repetiram a proeza de montar camelos!

Para além da sutura que referimos, não houve grandes problemas de saúde com os membros da equipa durante a viagem… simples dores de cabeça, unhas pisadas por jerrycans ou por camelos, lombrigas, noites mal dormidas, indisposições, e pouco mais!”

Cinco horas depois apareceu a polícia, tendo o Macau sido transportado por uma grua para cima duma camioneta, preso por toros de madeira, que atravessavam as janela!

Apesar do frio, todos suávamos com medo que o carro se partisse em dois!

Tudo se resolveu: os proprietários do Moskvitch, rapazes novos, receberam uma indemnização, mas repetiam “eu não quero dinheiro, quero é o meu automóvel arranjado, tenho de esperar meses para arranjar outro carro”! Os raidistas Igor e Seguei tudo fizeram para que o problema se resolvesse, sem eles o processo teria sido muito mais complexo!

Na verdade, parte da viagem ficou marcada com este grave incidente, mas que igualmente nos uniu ainda mais, provando que a equipa funcionou e estava pronta para ultrapassar as adversidades e obstáculos, numa altura em que o cansaço e as saudades da família já começavam a pesar…

Acidente quase fatal a 300 km de Moscovo

Lembra o Calado

“O que partiu mesmo foi o cubo da direção esquerdo do Mitsubishi “Macau”, que eu conduzia e onde se encontravam também o Mário e os “nossos” dois russos. Embora sem danos corporais complicados – apenas eu tive de ser assistido e suturado no local devido a um pequeno traumatismo craniano – os carros envolvidos, todavia, ficaram muito mal tratados e houve que retirar o Pagero, “em braços”, para uma oficina, onde a cooperação luso-soviética funcionou em pleno e o jipe foi recuperado, com a intervenção decisiva do mecânico de serviço e membro da equipa desde o início do projeto, o António Teixeira. Alcançada Kiev, aproveitei mais um dia de repouso para recuperar e partimos em direção à Europa Ocidental.”

Nascia nova preocupação, pois os objetivos do raide ainda podiam falhar: Será que o Pagero acidentado aguenta até Lisboa?

Acidente quase fatal a 300 km de Moscovo

41º Dia, 5 de setembro
Oriel-Kiev (Орёл-Киев)

Entramos na República da Ucrânia.

No dia 4, em Oriel, chegámos muito cansados devido a toda a tensão causada por aquele azar, mas o Teixeira e o Mário Sin, com a ajuda dum mecânico local, ainda foram desmontar e soldar o trapézio da suspensão e instalar uma rótula que descobriram num ferro velho… pagámos 340 dólares! Mas ficámos sem tração às 4 rodas no Macau.

O que vale é que já havíamos atravessado o deserto.

No dia seguinte voltámos para trás, a Tula, na República da Rússia, para tratar da burocracia relativa ao sinistro. Para “alegrar a festa”, numa reta em direção a Tula, onde o limite de velocidade era de 40 km/h, o Fernando Silva foi multado por excesso de velocidade! Não devia ir a mais de 50 km/h! Para cúmulo, como era estrangeiro, teve que pagar a multa em dobro… 9 rublos! Almoçámos com os polícias que tomaram conta das burocracias relativas ao desastre, orgulhosos por terem ajudado a resolver o sinistro imbróglio, num restaurante tipicamente russo (não tinha facas, comemos com colher… os meus companheiros lembram-se disso?). Aos 290km o fragilisado Macau furou, ainda sequelas do que acontecera.

Quanto partimos para Kiev, na Ucrânia, eram 17h00. Chegámos à 1h00 da madrugada, após uma viagem de 570 km, em “câmara lenta”.

42º Dia, 6 de setembro
Kiev-Uhzgorod (Киев-Ужгород)

Saímos de Kiev no dia 6, pelas 9h00 da manhã, e chegámos a Uhzgorod no dia seguinte após as 3h00 da madrugada. Uhzgorod, na Ucrânia, fica a cerca de 20 km da fronteira com a Hungria, e dela fez parte até 1918. Entre 1919 e 1938 integrou a Checoslováquia e, em 1945, foi anexada pela União Soviética. Em Kiev (cidade que fica a 40 km de Chernobil, local do acidente nuclear de 25 e 26 de abril de 1986, num reator nuclear), ficámos no hotel Cisne, se bem me lembro. Eu, o Sergei e o Filipe, depois de muitas voltas, conseguimos arranjar um local para guardar os carros, não podiam dormir na rua, aconteceu algumas vezes durante a viagem, mas tentámos evitar ao máximo, pois ficavam com toda a carga à mostra.

Contactámos a Embaixada de Portugal em Budapeste, que nos ajudou a marcar hotel.

Aos 200 km partiu o eixo do braço da suspensão do Pagero acidentado, ainda consequência do assustador sinistro! De novo o Teixeira e o Mário Sin resolveram o problema! Será que o Macau aguenta até Lisboa? Temos pela frente mais uma noite de viagem, não podemos perder mais tempo! Chegámos às 3h00 manhã, depois de 882 km de viagem!

Amanhã entramos na Hungria!

Pós-scriptum (acontecido em Samarcanda, dias antes do infortúnio e nunca anteriormente relatado a ninguém, muito menos aos membros da equipa!)
Já não me lembro de quem foi, talvez o A-Son. Estava pálido, nervoso, chamou-me de lado.
“Joaquim, tive um sonho estranho de que não gostei: vi um dos nossos carros num temporal, baloiçava, torcia, derrapava no chão molhado, não sei que pensar! Sim, acontece-me com frequência sonhar e por vezes até algo parecido acontece mesmo!” Sonhos! Pressentimentos! Era mesmo o que me faltava, pensei eu!
“Ah! Obrigado por teres contado esse sonho. Não se perde nada em ter mais cuidado na condução, nós todos!”
Este aviso, meia intuição, só agora em Lançada, no Montijo, com os dedos a cheirar a enguias fritas e o meio jarro de branco à pressão a meio, aproveitei o papel que tinha no bolso (a toalha era de pano) para relembrar o que aconteceu. Na altura, outros assombros mais positivos me enchiam o espírito, não liguei, mas não esqueci!
O A-Son era um tipo estranho, ainda em Macau contou-me que a família tinha por hábito organizar por datas um álbum de fotografias, em todos os retratos as pessoas pareciam dormir, tanto em grupos ou sozinhas, marido e mulher, crianças encostadas a canapés rodeadas de brinquedos, velhos deitados na cama de mãos dadas… só depois percebi que estavam mortas, eram imagens de familiares já falecidos, disse-me que era normal no século XIX em Inglaterra, onde os antepassados viveram. Nem sempre é fácil lidar com a morte…

(Sinto que, nestas crónicas, irei relatar mais situações delicadas, numa mistura de prazer e catarse).

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Joaquim Correia
Joaquim Correia
“É com prazer que passo a colaborar no jornal Regiões, até porque percebo que o conceito de “regiões” tem aqui um sentido abrangente e não meramente nacional, incluÍndo o resto do mundo. Será nessa perspectiva que tentarei contar algumas histórias.” Estudou em Portugal e Angola, onde também prestou Serviço Militar. Viveu 11 anos em Macau, ponto de partida para conhecer o Oriente. Licenciatura em Direito, tendo praticado advocacia Pós-Graduação em Ciências Documentais, tendo lecionado na Universidade de Macau. É autor de diversos trabalhos ligados à investigação, particularmente no campo musical

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