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Bayingyis, os luso-descendentes de Mianmar

Ameaça de extermínio dos Bayingyis e o silêncio de Portugal

Dois anos após o golpe militar que de novo instaurou um regime de terror em Myanmar a situação da comunidade luso-descendente – comumente designada de bayingyi – tem vindo a agravar-se dia após dia devido aos ataques regulares às suas aldeias por parte dos militares. Nos 450 anos de existência os bayingyis vivem hoje o seu momento histórico mais crítico. Pese a omnipresença da guerra da Ucrânia nos media, os incidentes têm sido citados em diversos orgãos de comunicação social internacionais, nomeadamente na Austrália e em França. Entre nós, e apesar dos alertas lançados ao longo de 2022 por diversos organismos, entre os quais a Associação Internacional de Luso-Descendentes (AILD), tão só se observam breves apontamentos nalguma imprensa e rádio, jamais a dita ‘de referência’. Pouco, muito pouco, para a tão desejada visibilidade capaz de provocar mudanças no terreno.

A generalidade dos portugueses continua a desconhecer o drama vivido diariamente por milhares de membros dessa peculiar comunidade que vai buscar as suas origens a um grupo de aventureiros seiscentistas (ver Caixa), e que presentemente se encontra na triste condição de refugiada.

Embora existam bayingyis (estima-se em 100 mil, o seu número) um pouco por todo o Mianmar, a maioria concentra-se em cinco aldeias perto da cidade de Mandalai, no norte do país. As agressões a essas aldeias tiveram início a 21 de Dezembro de 2021, quando um grupo de militares saqueou Chaung Yoe, provocando a debandada dos seus habitantes. A 10 de Janeiro de 2022 foi a vez da aldeia de Chan-tha-ywa toda ela pilhada também. Durante a razia, foram abatidos os animais domésticos, encarcerados os doentes e idosos (que não puderam fugir) e barbaramente executados três habitantes, um deles deficiente físico. A 25 de Fevereiro a tropa voltou a Chaung Yoe disparando artilharia que reduziria várias casas a escombros. Só não houve mortes porque os residentes fugiram antes da chegada da força militar. A 28 de Março Chan-tha-ywa sofreu novo ataque, desta vez levado a cabo por elementos à paisana fortemente armados que queimaram dezenas de casas, vandalizaram a igreja e casa paroquial e molestaram três religiosas. Foram nessa ocasião abatidos a tiro um homem e um seu filho, quando tentavam escapulir-se pelos arrozais. A 6 de Maio, uma vez mais Chan-tha-ywa, 22 casas incendiadas e as colheitas destruídas; a 20 desse mês, Chaung Yoe, que viu 300 das suas casas arrasadas a tiro de artilharia. A 7 de Junho, 150 soldados irromperam de novo pelas ruelas de Chan-tha-ywa, obrigando o pároco local – chamemos-lhe Paul –, várias religiosas e os moradores que ali restavam a buscar refúgio numa aldeia vizinha.

Depois de vasculharem as habitações e delas retirarem os mais valiosos pertences, deitaram-lhes fogo, assim como às colheitas recentemente retiradas dos campos. No total foram destruídas 117 casas, incluindo a casa da família do padre Paul. Em Dezembro de 2022, um novo alvo: a aldeia de Mon Hla, onde foram mortos dois adultos e uma criança de sete anos, vitimadas pelo ataque aéreo que precedeu a entrada de centena e meia de soldados na povoação. Horas depois, 200 dos 700 lares dessa aldeia de três mil habitantes não passavam de um monte de cinzas… O mais recente episódio de violência aconteceu em Janeiro passado, de novo na martirizada Chan-tha-ywa. Datada de 1894 a igreja de Nossa Senhora da Assunção era um local de culto com inestimável valor histórico e patrimonial.

Hoje, não passa de uma ruína. Os soldados que desde 14 de Janeiro se encontravam acampados nas imediações do templo, antes de partirem decidiram deitar-lhe fogo, não sem antes beberem e fumarem no seu interior. A casa paroquial e o convento tiveram o mesmo destino. Um dos militares deixou escrito numa das paredes o seguinte: “Malditos kalars (estrangeiros), saiam de Mianmar de uma vez por todas. Se não partirem, iremos matá-los um a um!” Segue-se a sua assinatura: “Michael Dainger” e a sigla da junta militar, “SAC”. A intimidação é uma velha táctica usada pelos generais birmaneses para justificar a sua interferência na política interna, como se pretendessem proteger o povo birmanês das ‘nefastas’ influências estrangeiras.

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“Quem se opuser à Junta é de imediato considerado uma ameaça, um agente estrangeiro provocador”, diz o padre Paul, com quem tenho estado em contacto desde as primeiras ocorrências. “Nenhum lugar é seguro no nosso país. Arriscamos as nossas vidas todos os dias. Podem prender-nos quando e onde quiserem. Não há lei. A lei é o que sai da boca deles”, conclui.

destruição nas terras dos bayingyis
Foto DR

O padre Paul chama-me a atenção para a dimensão do drama humanitário que se vive no norte de Mianmar, com milhares de refugiados espalhados pelas aldeias vizinhas ou em instalações provisórias cedidas pelo diocese de Mandalai.

E lança um apelo: “São mais do que nunca necessários alimentos, medicamentos e apoio financeiro e moral. A nossa gente perdeu tudo o que tinha”.

Entretanto, da parte das autoridades portuguesas, e apesar da comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades ter aprovado por unanimidade. Dia 21 de Junho de 2022, um voto de condenação “das atrocidades cometidas pela junta militar de Myanmar contra a comunidade lusodescendente Bayingyi”, parece que nada de concreto foi feito. Surpreendido e triste com este ensurdecedor silêncio, desabafa o padre Paul:

“Nós, os bayingyis, sempre tivemos muito orgulho das nossas raízes portuguesas, mas parece que Portugal não quer saber disso para nada”.

destruição nas terras dos bayingyis
Foto DR

Caixa:

O porto de Sirião, na embocadura do rio Irrauadi, frente a Yangon, ficaria para sempre ligado ao nome de Portugal e dos portugueses, graças ao controverso desempenho de um aventureiro chamado Filipe de Brito, que, de 1600 a 1613, fez o que muito bem lhe apeteceu em Sirião e na vizinha zona costeira.

Brito tinha absoluto poder sobre a região e seus habitantes tendo sido sob a sua protecção e auspícios que os capelões jesuítas puderam dar início ao processo de “evangelização entre os gentios”, como se dizia então.

Filipe de Brito não foi o único, mas tratou-se seguramente do mais famoso dos lusos aventureiros que pululavam naquela e noutras regiões da Ásia.

Os descendentes desses soldados portugueses, que na época de seiscentos lutaram ao lado dos soberanos de Ava e do Pegu, ou que faziam parte do pequeno exército de Filipe de Brito, ou do seu companheiro de armas, Salvador Ribeiro de Sousa, senhores feudais em terras do Oriente, ambos empossados com o título de «rei do Pegu», são hoje conhecidos em Myanmar como bayingyis

destruição nas terras dos bayingyis
Foto DR

 

 

 

 

 

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Joaquim Magalhães de Castro
Joaquim Magalhães de Castro
Licenciado em História, tem trabalhado nas últimas décadas na imprensa de Macau e em diversos jornais e revistas portuguesas. É autor de mais de uma dezena de livros ( Recomendados para o plano nacional de leitura) e onze documentários televisivos.

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