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Beto Kalulu, um dos introdutores da World Music em Portugal

… O que aconteceu em seguida é tão estranho e surreal que temo não conseguir explicar com clareza e tudo acabar por parecer disparatado: Beto embrenhou-se naqueles estranhos sons, colaborava com remotas batidas africanas trazendo ritmo que parecia desconexo mas que atraiu as estridentes vozes das cantoras de ópera chinesa, que inesperadamente apareceram nas suas vestes fantasmagóricas! Foram momentos únicos onde o Oriente profundo se deixou embrenhar por clamores vindos de longe, criando uma atmosfera mística de pagode e candomblé angolano.

Conhecer a vida de Beto Silva é acompanhar o jovem músico que depois do conjunto Windies, nos anos 60 e 70, deixou Luanda e partiu em busca de um sonho que finalmente encontrou no sol do Algarve, assumindo-se como Beto Kalulu.

Conhecer a vida de Beto Silva
DR

Para quem viveu em Angola nesses anos, relembrar a sua história será como entrar num palácio onde a memória da juventude é atualizada com sons de um mundo que não parou e o Beto soube acompanhar.

Com os Voa Bongosso, grupo surgido em 1983, começa a despontar o Beto Kalulu que de forma consistente se vai tornando num dos introdutores em Portugal do som que em 1986 Nick Gold viria a designar como World Music, que pratica no Jazz e na música africana.

Um espectáculo da sua banda representa mergulhar na mais profunda Mãe África, sentimos rumores e feitiços da selva, ouvimos as suas histórias e lendas. Mas o seu som é multifacetado, a influência Afro/ Pop com salpicos de música latina funde-se na componente jazzística que a colaboração com o saxofonista Manuel Guerreiro e o contra-baixista Carlos Barreto foi deixando, oferecendo envolvências de danças irresistíveis.

Sim, é a Manuel Guerreiro que deve o seu amor pelo jazz!

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Bem lembro as noites de Segunda-Feira no Carvoeiro Jazz Club onde tocávamos como Banda Kalulu para uma casa sempre apinhada, sempre com músicos convidados! Por vezes alterávamos o alinhamento mas o estilo mantinha-se sempre igual: um tipo de jazz moderno, de fusão, que incluía ritmos afro, brasil, funky e uma guitarra africana melódica. No Café Concerto na Rocha Brava, com a Banda Makudilé, manteve a memória do Manuel e o seu amor pela música por vários anos…

Na Alemanha toca no 5.º Jahre Festival der Weltmusik Bilaumskonzert em Bona, na África do Sul grava em Pretória, a convite da Record Company (EMI), dois temas com o trompetista Richy Ramolefe e toca no Festival de Jazz Virginia. Neste mesmo ano toca com Philip Hamilton, cantor e percussionista do guitarrista de jazz Pat Metheny.

No Algarve, entre muitos outros festivais de jazz, grava um álbum ao vivo, com Diego Ebbeler nas teclas, Bony Godoy no baixo e Paulão Rosa bateria, no espectáculo do Festival de Jazz de Portimão Maio Lindo Maio. Afirma o crítico de Jazz José Duarte na contracapa desse disco que “improvisaram quanto e como muito bem quiseram… e assim o festival foi um sucesso…”.

É convidado, pela terceira vez, a integrar The HooperVille House Band, com os convidados especiais Hywel Maggs nas guitarras e o saxofonista Howie Casey dos Wings de Paul McCartney.

Mas a sua alma é africana!

Quando falamos de percussão, devemos respeitar os músicos cubanos, mas claro que existem vários estilos diferentes – a salsa de Cuba, o samba e a bossa nova do Brasil ou mesmo Trilok Gurtu, o multipercussionista indiano!

E o semba angolano, claro!

Em Julho de 2015, Beto Kalulu e Banda actuam no Festival de Música Africana na Ilha de Faro com o cantor angolano Bonga, organização da Casa de Angola no Algarve.

Conhecer a vida de Beto Silva
DR

De novo com Bonga, Raul Indipwo, Paulo Flores, Afro Sound Star, Filipe Zau, Filipe Mukenga e muitos outros, participou na “Canção da Paz para Angola”, que em plena guerra civil juntou músicos dos dois lados do conflito e que veio a tornar-se hino que celebrou o fim da guerra em 2002. Dez anos mais tarde, o tema foi de novo utilizado como instrumento de construção da paz e reconciliação.

Acompanha o seu amigo Carlos Nascimento no Concerto com Orquestra para a Expo 98.

Grava com a Orquestra de Sopros do Algarve, dirigida pelo maestro João Rocha, o hino do Algarve, Praia do Carvoeiro.

Poderíamos continuar a mencionar eventos musicais relevantes, como a colaboração no concerto de Cesária Évora em Portimão, os encontros com o guitarrista e amigo Phil Mendrix ou com a violinista Badid Assad, as peças de teatro para crianças que criou e representou, os espectáculos com o Ensemble Moçárabe, grupo de música Árabe, Sefardita e Cristã, de onde resultou a colaboração no álbum Tá o Balho Armado, do grupo Adiafa.

Mas numa carreira de quase 50 anos ininterruptos, tal tarefa mostra-se impossível e mesmo desnecessária.

Mas há um encontro que o marcou para sempre!

“Numa noite no Café Inglês em Silves fui assistir ao concerto dos meus amigos Miguel Martins na guitarra, Carlos Barretto contrabaixo e João Melro na bateria. Depois de terminado o concerto comecei a ouvir um som de guitarra que me abanou de tal maneira que disse para mim, mas que alto som, mas continuei sentado a curtir até que dou por ela estavam algumas pessoas aglomeradas à volta desse músico que estava a tocar nos degraus duma escada. Espantado fiquei quando depois de acabar, o guitarrista se dirigiu a mim e apresentou-se, sou Gary Moore, tenho muito prazer em o conhecer, falaram-me que é baterista e percussionista e que tem um show de temas originais Afro Latina! Eu nem acreditei e ainda por cima aconteceu que ele no fim de semana seguinte tocou com o guitarrista Tuniko Goularte, que me convidou para os acompanhar! No ano seguinte morreu em Espanha, penso que sufocado pelo seu próprio vómito, depois de ter misturado bebidas alcoólicas em grande quantidade!”

Mora no Carvoeiro e o tema Praia do Carvoeiro, incluído no seu primeiro trabalho discográfico que data de 1993, veio a tornar-se hino local.

“As pessoas perguntam muito como é que surgiu esse tema. Bem, na comunidade da Aldeia do Almansor, onde vivíamos e recriámos uma cena hippie, havia muitas crianças. Penso que a inspiração foi uma brincadeira, numa ida à praia com o meu filho Tomé, com os castelos de areia, o mar, as ondas e os pescadores. Hoje é um tema incontornável nos concertos. Tenho de o tocar, pelo menos, duas vezes! Até os estrangeiros cantam o refrão na rua. É um autêntico postal musical. Acho que fui muito feliz em fazer essa música e a letra, recorda o baterista”.

Os seus 45 Anos de Carreira foram celebrados pela Câmara de Lagoa com um grandioso concerto em sua homenagem e com a oferta de uma salva de prata onde se gravavam palavras agradecendo a sua contribuição para o turismo e a música da região.

Pelas bandas que foi formando ao longo da sua carreira colaborou com músicos de excelência como Enzo D`Aversa, que produziu o seu álbum mais recente “45 anos de Música”, Marcos Vita e, mais recentemente, o seu filho Tomé DjentLy, entre muitos outros, para além de continuar a colaborar com Howie Casey, recriando temas dos Beatles.

O álbum “Beto Kalulu – 45 anos de música”, gravado em 2018, conta com a participação dum elenco de músicos de topo e convidados, como Dani Silva, Sílvia Nazário e Costa Neto, entre outros, que atuaram em dueto com o Beto. O álbum representa um festival de “cores musicais”, tantos são os estilos que por lá passam.

Constou-me que outras surpresas estão a serem preparadas…

Não é por acaso que a música do Beto, a que se junta a farta cabeleira Afro (bem retratada por mestre Fernando Aroso e que chegou a ser poster em publicidade da Casa Porfírios… quem se lembra?), se mantenha no “Top 10 of What to do in Algarve” dos guias turísticos nacionais e estrangeiros!

Cena para um concerto que há-de vir.

Mas agora era um som compassado, onde um grande gongo criava uma atmosfera imponente e grandiosa e do tambor Tang surgiam efeitos dramáticos, que entrelaçavam mistérios saídos de lugares longínquos. Beto sentia o corpo a ser invadido pelos objectos sonoros ritualizados e mágicos que emanavam dos instrumentos de percussão, as suas mãos acompanhavam a cadência, não hesitou quando os músicos o convidaram para um pequeno tambor pan-ku!

O que aconteceu em seguida é tão estranho e surreal que temo não conseguir explicar com clareza e tudo acabar por parecer disparatado: Beto embrenhou-se naqueles estranhos sons, colaborava com remotas batidas africanas trazendo ritmo que parecia desconexo mas que atraiu as estridentes vozes das cantoras de ópera chinesa, que inesperadamente apareceram nas suas vestes fantasmagóricas! Foram momentos únicos onde o Oriente profundo se deixou embrenhar por clamores vindos de longe, criando uma atmosfera mística de pagode e candomblé angolano.

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Joaquim Correia
Joaquim Correia
“É com prazer que passo a colaborar no jornal Regiões, até porque percebo que o conceito de “regiões” tem aqui um sentido abrangente e não meramente nacional, incluÍndo o resto do mundo. Será nessa perspectiva que tentarei contar algumas histórias.” Estudou em Portugal e Angola, onde também prestou Serviço Militar. Viveu 11 anos em Macau, ponto de partida para conhecer o Oriente. Licenciatura em Direito, tendo praticado advocacia Pós-Graduação em Ciências Documentais, tendo lecionado na Universidade de Macau. É autor de diversos trabalhos ligados à investigação, particularmente no campo musical

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