Quinta-feira,Abril 18, 2024
12 C
Castelo Branco

- Publicidade -

Carlitos ‘Abafa’

Arre fo**-se, cum car***o! Aí está, cinco estrelas, é só contar. Um germanismo, dois vernáculos e uma contracção – preposição mais artigo. “Que se passa, Carlitos?” Numa manhã inteira, ainda nem 40 ´aéreos´ fizera. Aquela malta estava cada vez mais mão de vaca! O normal seria 100 ´aéreos´, em manhã de Verão, sempre à sombra, que tisnado já ele era! Guardava uns lugares para uns burgueses, que chegavam a dar-lhe uma nota. Alguns deixavam-lhe mesmo a chave pra ele arrumar. E a ti guardo-te porque gostei da tua pinta, um senhor, mas simples. Eisscchh!!!

Carlitos ‘Abafa’
DR

Eu ligo ao Carlitos, que estou a chegar à praia, e ele inventa-me logo um espaço, quase sempre à sombra. A bófia? Não tem medo, arranja-lhes umas bifas. “Isto do sexo… até os reis! Aquele, das meninas de Odivelas, ganda maluco, tu sabes!”, dizia ele com a autoridade da sua 4ª classe, “com muitas reguadas”. Ainda assim, ´foi dentro´: “Estive lá três meses, aquilo não se aprende nada. Só porque abafáramos uns maços de cigarros; passáramos pra lá, a mala da carrinha aberta, os packs a rirem-se prá gente, éramos dois. Quando tornáramos a passar ainda lá estavam, a pedi-las, já se vê!… O que é que tu fazias”, atirou-me à queima-roupa. Nem me deu hipótese a resposta, atalhou logo com o doutor que o tirou da choldra; também lhe arranjava umas ´estudantas´, um cota porreiro!

Ah!, Carlitos, deverias poder abafar, que antes de ti outros abafaram de grande, que nada lhes aconteceu, por ora, conquanto as estátuas estejam a inclinar ao fundo de rios e marés e em chãos graníticos. Esse que disseste, rei, o das meninas de Odivelas – tu o cantarolaste vivaz -, o que ele abafou! Eram aos milhares, vinham para ser abafados, a toque de rebenque, embora as promessas outras fossem.

A par disso, o mesmo monarca abafava em piolhos e percevejos, atenazavam-lhe cabeça e corpo, pois que estes não reverenciam cor em sangue, seja ele azul ou vermelho, rubro quer encarnado. E abafava as meninas, como bem recordaste, a troco de proventos desbaratados. E nós, que abafados andamos, que outros piolhos ou percevejos, mais evoluídos, a abafar nos obrigam (pois a gente agiganta por respeito e medo ao que se não vê a olho, e também por isso nos trazem mais espartilhados). Logo tu, Carlitos, só por abafares uns cigarros, digamos mil – se tanto alcançou! Não chegavam nem molhavam, destinados fossem a cada trabalhador subordinado a sua majestade. Esse, o das meninas, um D. João, “quinto do nome na tabela real”. E revoltas-te, bem, enquanto a mim, que já a nação não te havia a suportar em dormidas e comidas, quando vais ´dentro´, como agora foras! E os outros, com rosto e nome e currículo técnico, que abafam milhões?

Assim vem e anda o mundo destrambelhado, que não é isto de agora! Lucubrava eu com os meus alinhavos, enquanto encostavas os carros, vai à direita, ora ao centro, quer à esquerda, como é dado a homem de brios, pela mestria com que a prática te catequizou, para logo interromperes, que ´um avião´ subia as escadas da praia: “Vês aquela bifa, ali? Uma noite…”.

E que noite, Carlitos! Iam os dois abafando, a aquilatar pelo entusiasmo que puseste na prosa. Também tu podias ser rei! Ali, naquele parque, ninguém te tira o trono; nem o do Convento!

- Publicidade -

“Como é que o ´Bro´ se chamava mesmo?”

- Publicidade -
João Reis
João Reis
Exerce a actividade de docência lectiva nas disciplinas de Português, Latim e Grego Clássico desde 13 de Outubro de 1987. Coordenador do projecto do Jornal de Escola de 1987 a 2010. Presidente da Cáritas Inter-Paroquial de Alcains desde 2013.

Destaques

- Publicidade -

Artigos do autor