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Felicidade – lucro (i)material!

Tenho por conceito de felicidade o prazer em sentir o meu próximo feliz. Veio-me esta coordenada por leite materno, e continuei a conjugar este prazer pela vida fora. Sou verdadeiramente um homem fortunoso. E não o sou apenas em tese, pois que até tenho substância concreta que tal comprove.

Felicidade - lucro (i)material!
DR

Mas quem é o meu próximo, afinal, por contas? Bem vistas as coisas, não será difícil de ajuizar. Veja-se, pois, com lógica silogística:

O meu próximo é aquele com quem estou ou visito com regularidade;

Visito com regularidade o Pingo Doce;

Logo, o Pingo Doce é o meu próximo.

Fiquei esfuziante, quase esfuziado, com os resultados deste meu próximo, que fechou o exercício de 2022 com um crescimento de 27,5% nos lucros, para 590 milhões de euros – deverá fazer-se um ‘O’ grande com a cavidade bucal, na pronúncia de “milhões”, como é devido, por felicidade partilhada.

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Quejando silogismo terá valimento para outras situações, de outros próximos, por afinidade óbvia. Falo da Galp, a quem não dispenso a visita hebdomadária, que lucrou 420 milhões; falo da EDP, com quem até chego a privar ao telefone – ainda ontem falei com a Marta, que me trata carinhosamente por João, quase meia hora -, que lucrou 306 milhões; falo da Sonae, a quem voto incursões regularíssimas, na pessoa dos seus Continentes, por Modelos, com 118 milhões de lucro; e por aí afora, sem esquecer a REN, a banca – o Millennium BCP, a Caixa Geral de Depósitos, o BPI, o Santander, o Novo Banco -, tudo massa próxima, e que me acrescenta felicidade, por lhes saber de lucros, por milhões, sempre ditados àquele jeito, com os tais arredondamentos bucais e prolongamento nasal ao som do ditongo – õõões! É um prazer sublimado, bem se perceberá. Que hei-de fazer, tenho esta pulsão altruísta, abnegada, pronto!, eu não queria dizer, mas… já está! Tudo isto no espaço de 6 meses! Claro que o Tjaquim, o Ti Zé, a Ti Maria, o Favas, o Anastácio, esses Tios todos não me são nada, não lhes tenho qualquer proximidade – nem quero! Não ganham milhões! E eu com isso? Que se preocupe quem lhes é próximo, ora!

Já o Estado, com quem privo de mui perto, teve um aumento da receita fiscal, no mesmo período, de 5 mil 262 milhões de euros (quase tentados a tratá-los por biliões, – não podemos fazê-lo por ora, ainda que a globalização para lá nos arraste!… -), muito acima do previsto no Orçamento do Estado para 2022, com a receita fiscal a crescer 30% face a igual período do ano transacto. Ah!, Nirvana!!!

Folgo em não viver no século XVII, com um padre António Vieira a soprar-me às oiças que os grandes comem os pequenos, no seu Sermão aos Peixes, em que afronta os colonos do Brasil. E coiso, que os peixes como os homens se comem uns aos outros… “Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.”

Ao invés, folgo em viver nos séculos de outro António, tu, meu querido Toni, coração aberto, vinte e quatro sobre vinte e quatro, que a tudo assistes com sorrisos por bonomia, escanchados naquele ‘optimismo crónico’ que te enforma e que açula urticárias presidenciais ‘ligeiramente irritantes’.
Também isto nos afiniza, estes -õõões, por Felicidade, Eminente, Supina, Suprema!

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João Reis
João Reis
Exerce a actividade de docência lectiva nas disciplinas de Português, Latim e Grego Clássico desde 13 de Outubro de 1987. Coordenador do projecto do Jornal de Escola de 1987 a 2010. Presidente da Cáritas Inter-Paroquial de Alcains desde 2013.

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