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HÁ PASSARITOS QUE NÃO SÃO CAVALHEIROS…

HÁ PASSARITOS QUE NÃO SÃO CAVALHEIROS…Vamos viver o VII Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco. Trazer os pobres para o centro das preocupações humanas tem sido uma das linhas de força do pontificado deste Papa, amando e olhando o pobre como pessoa de alto valor, com rosto e história, com coração e valores. A sua atitude diferencia-se de qualquer ideologia ou de quem os utiliza e coloca ao serviço de interesses pessoais, políticos, económicos ou outros. Honra lhe seja por isso. Com palavras suas, recordemos o Dia Mundial dos Pobres e traduzamos este dia em todos os dias da nossa vida.

HÁ PASSARITOS QUE NÃO SÃO CAVALHEIROS...
DR

Como sabemos, a pobreza tem muitas causas e rostos, variadas dimensões, formas e expressões materiais, culturais e religiosas. Convidados a viver a pobreza voluntária de coração aberto ao amor, estamos todos desafiados a servir os pobres, sem descanso. Esse dever inspira-se nos apelos constantes da Sagrada Escritura, na pobreza de Jesus, na atenção de Jesus aos pobres e na sua identificação com eles. “Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica do que cultural, sociológica, política ou filosófica. Deus manifesta a sua misericórdia, antes de mais, a eles. Esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a possuírem os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus (cf. EG198).

Há sessenta anos, São João XXIII escrevia: “O ser humano tem direito à existência, à integridade física, aos recursos correspondentes a um digno padrão de vida: tais são especialmente a nutrição, o vestuário, a moradia, o repouso, a assistência sanitária, os serviços sociais indispensáveis. Segue-se daí, que a pessoa tem também o direito de ser amparada em caso de doença, de invalidez, de viuvez, de velhice, de desemprego forçado, e em qualquer outro caso de privação dos meios de sustento por circunstâncias independentes da sua vontade” (PT, 11).

A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum “são questões que deveriam estruturar toda a política económica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspetivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas palavras se tornaram molestas para este sistema! Molesta que se fale de ética, molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribuição dos bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça. Outras vezes acontece que estas palavras se tornam objeto duma manipulação oportunista que as desonra. A cómoda indiferença diante destas questões esvazia a nossa vida e as nossas palavras de todo o significado. A vocação dum empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos” (EG203).

Na sua Mensagem para este dia, o Papa refere que a pobreza continua a permear “as nossas cidades como um rio que engrossa sempre mais até extravasar; e parece submergir-nos, pois o grito dos irmãos e irmãs que pedem ajuda, apoio e solidariedade ergue-se cada vez mais forte”. De facto, vivemos “um momento histórico que não favorece a atenção aos mais pobres”. Olha-se para os pobres floreando a retórica e caindo na tentação das estatísticas e dos números, esquecendo que eles “são pessoas, têm rosto, uma história, coração e alma. São irmãos e irmãs com os seus valores e defeitos, como todos”. A parábola do bom samaritano “não é história do passado; desafia o presente de cada um de nós. Delegar a outros é fácil; oferecer dinheiro para que outros pratiquem a caridade é um gesto generoso; envolver-se pessoalmente é a vocação de todo o cristão”.

Centrada numa cena da vida familiar de Tobit, Ana e o filho Tobias, a Mensagem do Papa chama-nos a atenção, para valores que a família, ao vivê-los, naturalmente transmite. Entre eles estão os valores da justiça, da caridade e da solidariedade, do bem: «Filho, lembra-te sempre do Senhor, nosso Deus, em todos os teus dias, evita o pecado e observa os seus mandamentos. Pratica a justiça em todos os dias da tua vida e não andes pelos caminhos da injustiça» (Tb 4, 5). Mais: «Dá esmolas, conforme as tuas posses. Nunca afastes de algum pobre o teu olhar, e nunca se afastará de ti o olhar de Deus» (Tb 4, 7). Vivendo momentos de abundância e de pobreza, de tristezas e de alegrias, esta família jamais desistiu de viver com dignidade e honra, fiel a si mesma, a Deus e aos outros.

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Um dia, regressando cansado de ir enterrar um homem que tinha sido estrangulado, atirado para a praça do mercado e abandonado, Tobit adormeceu no pátio da sua casa. Não tinha notado que havia uns pardais no muro, mesmo por cima dele. Destes, caiu excremento quente nos seus olhos e de nada lhe valeram os médicos que consultou, ficou completamente cego. Os pardais, em vez de o embalarem com a sinfonia harmoniosa do seu chilrear, desafinaram, não foram cavalheiros, prejudicaram-no, destruíram-lhe a vida, tornaram-no pobre e incapaz de trabalhar.

No mundo em que vivemos, para além das pessoas bem-intencionadas e esforçadas, que colocam os seus dons ao serviço do bem comum, com criatividade e bem fazer, para além destas pessoas promotoras do bem-estar social, continuam a existir passaritos, pássaros e passarões nada cavalheiros para com os outros humanos: cegam e tiram a voz a uns, exploram e humilham outros, marginalizam e desprezam sem dó, fabricam pobres e mais pobres deixando-os abandonados na ampla praça da sua indiferença.

Há pobres de bens, de amor, de acolhimento, de atenção, de igualdade, de liberdade, de pátria, de paz, de progresso, de saúde, de sentido da vida, de alegria, de cuidados de toda a espécie, inclusive de cuidados espirituais.

Todos, mas os cristãos de uma forma muito específica, somos chamados, “não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles” (EG198).

Quem já senta o pobre à sua mesa, experimente sentar-se à mesa do pobre….

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Antonino Dias
Antonino Dias
“É a logica que faz prestar atenção ao clamor do pobre, do mais fraco, do marginalizado, lógica de quem se opõe à violência dos que se servem da riqueza e do poder, da injustiça e da indiferença para humilhar e explorar os outros”, disse D. Antonino Dias - 22/11/2019".

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