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Igreja não se entende sobre suspensão de padres suspeitos

A polémica está instalada no seio da Igreja Católica portuguesa. Bispos estão em desacordo quanto à suspensão ou não dos padres suspeitos de abusos sexuais de menores, havendo, inclusivamente, casos como o do bispo de Beja, D. João Marcos, que considera que os padres que demonstrem estar arrependidos poderão ser perdoados pela Igreja Católica.

No extremo oposto está o bispo emérito das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, que, em entrevista à RTP, defendeu a suspensão preventiva de alegados padres abusadores de menores e considerou que os bispos que encobriram esses casos “não servem para o lugar que ocupam”.

Igreja não se entende sobre suspensão de padres suspeitos
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As pessoas estão primeiro do que a igreja. É esta a obrigação que D. Januário Torgal Ferreira atribui à hierarquia católica, no caso dos abusos sexuais cometidos por padres, exigindo, em entrevista exclusiva à RTP, o afastamento preventivo dos padres acusados, salientando que não é possível ter a casa arrumada e ter pessoas abusadas desarrumadas.

Apesar das críticas que se ouvem às medidas anunciadas pela Conferência Episcopal, Januário Torgal Ferreira acredita que a Igreja vai fazer mais, até porque houve ainda muito pouco debate entre os bispos.

Já o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, afasta a suspensão de alegados padres abusadores de menores sem que haja “factos comprovados, sujeitos a contraditório” e um processo canónico feito pela Santa Sé, salientando que Portugal é um “país de lei e qualquer pessoa que seja acusada tem de saber do que é que é acusada”.

“Aquilo que nos foi entregue pela Comissão Independente foi uma lista de nomes. Se essa lista de nomes for preenchida por factos, tanto nós como as autoridades civis podemos atuar. Da parte da Igreja, estamos completamente disponíveis para procurar a resolução deste problema, em colaboração, claro está, com as entidades civis e canónicas”, afirmou o cardeal-patriarca de Lisboa.

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Daniel Sampaio desmente cardeal-patriarca

O psiquiatra Daniel Sampaio, membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, desmente categoricamente D. Manuel Clemente, sublinhando que “quando o cardeal-patriarca diz que a Igreja não tem dados não é verdade”.

Apesar de D. Manuel Clemente assegurar que a Igreja irá fazer “tudo aquilo” que puder de acordo com a lei, Lisete Fradique, do movimento católico «Nós Somos Igreja», arrasa a Conferência Episcopal Portuguesa, lembrando que a carta que tinham enviado aos bispos a pedir o afastamento de sacerdotes suspeitos de pedofilia e dos superiores hierárquicos que os encobriram “foi completamente ignorada”.

O movimento católico Nós Somos Igreja tinha pedido formalmente aos bispos portugueses o afastamento dos padres abusadores de menores e de quem os encobriu durante as últimas décadas.

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O psiquiatra Daniel Sampaio recorda que houve um trabalho realizado ao longo ao último ano em todas as dioceses com os bispos e que “cada nome é do conhecimento das dioceses”. “Quando o cardeal-patriarca, D. Manuel Clemente, diz que a Igreja não tem dados não é verdade”, afirmou.

Daniel Sampaio nega que a Igreja tenha recebido uma lista com os nomes dos padres abusadores sem ter mais informações sobre os casos denunciados, descrevendo a postura dos bispos como um “atrasar do problema”.

“Não é verdade que é só uma lista de nomes”, afirmou, esclarecendo: “A lista foi obtida a partir das denúncias de vítimas – em que a vítima X diz que foi abusada pelo padre Y – e da investigação resultante do Grupo de Investigação Histórica junto dos arquivos. E a lista que foi entregue resulta da junção destas duas”.

De recordar que D. João Marcos foi o único bispo português que não foi entrevistado pela comissão independente que investigou os abusos sexuais de menores na Igreja Católica. Na altura, tinha dito que não o fez porque se esqueceu de responder ao pedido da comissão. Agora, referiu também que sofreu há alguns anos um AVC que lhe deixou algumas mazelas, incluindo o esquecimento.

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Alfredo Miranda
Alfredo Miranda
Jornalista desde 1978, privilegiando ao longo da sua vida o jornalismo de investigação. Tendo Colaborado em diferentes órgãos de Comunicação Social portugueses e também no jornal cabo-verdiano Voz Di Povo.

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