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Jill Jolliffe merece uma estátua em Timor

Jill Jolliffe morreu aos 77 anos, vítima de Alzheimer, e levou com ela todas as memórias de uma jornalista de causas. Uma delas foi a luta de Timor-Leste pela independência.

O encontro com Jill Jolliffe

Conheci a Jill Jolliffe em Timor já em 2000, após o referendo que libertou o território, mas ainda em clima de guerrilha. De todos os repórteres que lá estavam, a jornalista australiana era a que mais conhecimento tinha da história de Timor, desde a invasão Indonésia, a resistência do povo durante 24 anos, até à conquista da independência.

Jill podia ser a vedeta dos jornalistas internacionais, mas não era.

Conheci uma mulher simples, profissional, sem vaidade ou ostentação do saber que de facto tinha.

Um dia viajamos juntas até Batugadé, distrito de Balibó, onde em 1975, Jill viu serem assassinados cinco camaradas jornalistas internacionais.

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A história por trás da Fotografia

Esta fotografia na ponte de Batugadé, conta uma história. Era o único local onde havia rede de telemóvel, e num único ponto. Por isso era preciso esperar vez. Nesse dia, cheguei à ponte e a Jill já lá estava a preparar o envio do trabalho do dia.

Ela sabia que eu era da Rádio TSF e pensou que tinha que entrar em direto. Imediatamente disponibilizou a vez para mim. Não aceitei porque de facto nao era para directo. Fiquei a ver e ouvir a Jill ‘despachar’ o trabalho dela. Para mim, foi um privilégio apreciar o profissionalismo da mais sábia jornalista que ali estava.

Jill Jolliffe descontraída
Foto DR

Em Balibó, num dia de más memórias para a Jill, acabamos a rir à gargalhada porque o sinal de telemóvel falhava ao mínimo movimento físico. Tínhamos mesmo que estar como estátuas.

E, pelo que trabalhou por Timor, a Jill Jolliff até merece uma estátua em Díli.

Como diz o líder timorense Xanana Gusmão:”Jill era heroína, uma rebelde, uma lutadora. Expôs de forma persistente a realidade da ocupação militar indonésia e apoiou a luta do povo timorense. Terá sempre um lugar especial na nossa história nacional. Ela é uma de nós”.

Para mim, Jill Jolliff foi um bom exemplo de uma jornalista de causas justas.

Obrigada Jill por me ensinares também que ser jornalista de referência não é ser vedeta. Tenho a certeza que estás em paz.

 

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Manuela Teixeira
Manuela Teixeira
Jornalista Durante 35 anos com experiência em rádio, imprensa escrita e web jornalismo. trabalhou no jornal, Público, rádio TSF, Expresso, 24 Horas e Correio da Manhã, entre outros OCS. Como repórter foi correspondente à guerra na Bósnia, Kosovo e Timor. Só faz jornalismo com verdade, rigor e isenção. "Se não for assim, não é jornalismo!”

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