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Lar Major Rato: a grande família que três mulheres dirigem

Uma grande e antiga família. É desta forma que o Lar Major Rato, instituição particular de solidariedade social (IPSS), solidamente instalada em Alcains, no concelho de Castelo Branco, a funcionar ininterruptamente há 163 anos, faz o seu auto-retrato. Sempre afastado da politização e com as contas em dia, apesar das grandes dificuldade de gestão e manutenção de uma estrutura desta dimensão, parece haver algo que nenhuma direção do Lar Major Rato tem esquecido: o fim para que a instituição foi criada, de ajuda e apoio aos pobres e desfavorecidos da terra. Garantem que aqui o dinheiro não interfere no acesso de entrada de novos utentes, sendo que a maior parte das vagas, através de acordos de cooperação com a Segurança Social, são destinadas àqueles que têm maiores carências financeiras. Cumprindo o seu propósito, a IPSS não se poupa a esforços na altura de evitar subidas galopantes nas mensalidades dos utentes. Segundo a direção, todas as IPSS foram obrigadas a aumentar os preços para acompanhar a inflação, sendo que algumas dispararam aumentos na ordem dos 16%. O Lar Major Rato não ultrapassa os 4%, nunca esquecendo também o apoio vital dos sócios para a sobrevivência da instituição.

Atualmente, o núcleo duro operacional do Lar Major Rato é constituído por três mulheres: Conceição Leão, presidente da direção, Marta Gonçalves, diretora técnica, e Sofia Santos, diretora da valência de infantário. Pela primeira vez na longa história da instituição, – que nasceu por vontade expressa em testamento do benemérito alcainense Major João Duarte Rato, primeiro como albergue destinado a pobres, em 1860, e que só se viria a constituir como Lar em 1984, sobrevivente a muitas crises políticas, financeiras, guerras e pandemias – um retrato feminino vai constar na parede de honra, ladeando todos os anteriores presidentes homens.

Lar Major Rato: a grande família que três mulheres dirigem

Ao todo, são 120 funcionários a trabalhar na estrutura, naquela que é já a segunda maior entidade empregadora daquela vila.

Na valência de lar, serão já cerca de 220 pessoas a beneficiar de todos os serviços prestados. A Estrutura Residencial para Idosos (ERPI) conta com um universo de 115 utentes. O centro de dia tem 10, o serviço de apoio domiciliário, 40, os centros de convívio de S. José e de Nossa Sra da Conceição, mais 40. A IPSS presta ainda o serviço das cantinas sociais, com a distribuição diária de 13 refeições a pessoas referenciadas na Segurança Social.

O infantário é agregado posteriormente, em 2013, através do convite da Segurança Social, com a qual se celebrou um contrato de comodato, numa transferência das competências do Estado para a IPSS.

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“Nem na minha casa se comia pão tão fresco como aqui”

“Nem na minha casa se comia pão tão fresco como aqui”, afirma com satisfação José Martins de Oliveira, enquanto beberica de um copo de vinho, servido à hora de almoço, juntamente com a refeição. São 88 anos de vida, 12 deles “muito felizes”, passados no Lar Major Rato. Uma visita ao economato da estrutura demonstra precisamente a gestão rigorosa existente com a comida: produtos de primeira qualidade fornecidos pelas empresas com melhor implementação no distrito. As refeições são sempre completas, incluindo sopa, pão, prato principal, bebida, sobremesa e café (para os que podem), e com menus distintos, adaptados às condições de saúde de cada idoso. Também o asseio e limpeza fazem parte das regras principais da casa. Passeando pelos corredores, cruzámo-nos com a D. Graça que ia visitar a mãe. O pai também já tinha passado os últimos anos de vida naquela instituição e sempre agradeceu à filha por deixá-lo aos cuidados do Lar Major Rato. “Primeiro o meu pai, que já partiu, e agora a minha mãe. Já tenho a experiência a dobrar por vários anos e nunca vi os meus pais sujos ou com ar desleixado. Sempre fiquei totalmente descansada, com a confiança de que aqui estão a ser bem tratados”, detalha.

Lar Major Rato: a grande família que três mulheres dirigem

O senhor José volta à conversa connosco, mais tarde, depois de dormitar o seu quinhão relaxadamente à sombra de uma árvore frondosa do jardim do Lar. “Perdi a minha esposa há cerca de meio ano. Ela entrou comigo para esta casa. A vida é assim mesmo… Vou entretendo-me nas atividades e tenho autorização para ir dar o meu passeiozinho ao centro da vila”, diz. Música, hidroginástica, fisioterapia e atividades de animação sociocultural, são várias as atividades disponíveis, mantendo a autonomia dos utentes, sempre que possível, para que se possam sentir úteis e felizes. Este tem sido o lema da instituição. E as visitas, à exceção do malfadado período de Covid-19, sempre foram abertas, durante a parte da tarde. No entanto, mesmo fora do horário, “se algum familiar, por algum motivo, vem a Alcains de manhã, ou vai de férias, e lhe dá jeito vir visitar e dar um beijinho ao utente, pode sempre fazê-lo”, afirma Marta Gonçalves, acrescentando que a dinâmica está, aos poucos, a regressar à normalidade e que a reabertura se tem feito com zelo e proteção pelos idosos.

“Ninguém quer lembrar ou voltar àqueles tempos terríveis. Ainda temos este sabor amargo”, frisa. Subsistem ainda mazelas, sobretudo psicológicas, muito recentes resultantes da pandemia. O Lar teve de debelar a doença por duas vezes, sendo que da primeira resultaram 10 óbitos, na fase em que ainda não existia vacina. As equipas de intervenção, prometidas pelo Governo a nível nacional, nunca chegaram à instituição e a IPSS teve de dar a volta sozinha, num sufoco de falta de recursos humanos para atender às exigências e cuidados quadruplicados que a situação demandava. Também a esta crise, o Lar sobreviveu.

O alargamento da creche

Numa altura em que jorram pela imprensa, a um ritmo praticamente diário, notícias sobre maus-tratos a idosos e crianças em instituições privadas ou de cariz solidário espalhadas um pouco por todo o país, o Lar Major Rato destaca-se como uma referência nacional pela positiva.

Para as três mulheres que lideram a casa não há segredos: a diferença faz-se pela forte proximidade e abertura da instituição junto da comunidade e por uma componente humana bem vincada de todos os colaboradores que vêem os utentes como membros da família.

“Cada colaborador sente o Lar Major Rato um pouquinho como seu. Todos os utentes desta casa são como família. Quando essa parte de humanização está muito vincada nas equipas de trabalho, as instituições funcionam muito melhor. Entendemos que aqui se trabalha com seres humanos e o horário é o que menos importa. A instituição não tem horários. Funciona 24H por dia, incluindo todos os feriados. E se estivermos todos focados nesse sentido, em que as direções e as chefias sejam o exemplo, a equipa veste a camisola e vai atrás. Esta estratégia está muito enraizada dentro do Lar Major Rato e faz toda a diferença”, sublinha a diretora técnica Marta Gonçalves.

O fenómeno do envelhecimento demográfico assola todas as sociedades desenvolvidas. Portugal não escapa a essa realidade, tendo o índice de envelhecimento vindo a aumentar de ano para ano. Estamos a falar de uma percentagem de população com mais de 65 anos que passou de 27,5% em 1961, para 148,7% em 2016. Consequentemente, o número de idosos é cada vez mais elevado em relação aos jovens existentes, o que implica às sociedades a necessária modificação de políticas, de modo a salvaguardar este crescente número da população.

No entanto, e contrariando a tendência descrita, o número de crianças em Alcains e localidades limítrofes tem vindo a aumentar exponencialmente nos últimos anos, pelo que o infantário da IPSS já não consegue dar resposta ao elevado número de crianças em lista de espera, numa estrutura que permite o acolhimento de 90 crianças e que se encontra, de momento, lotada.

Lar Major Rato: a grande família que três mulheres dirigem

“Estamos a sentir um crescimento enorme na vila. Há muitos casais novos que estão a sair do litoral e a vir para o interior em busca de melhores condições de vida e todos os dias recebemos pré-inscrições. Neste momento, não conseguimos dar resposta a todas as famílias, sobretudo para os nascidos em 2021-2022, que são crianças muito pequenas”, sublinha Sofia Santos, diretora da estrutura infantil.

E se, por um lado, há um sentimento de orgulho por parte da dirigente, pois “uma elevada procura é sinónimo de uma imagem de confiança e credibilidade que a instituição passa para a comunidade”, por outro, Sofia Santos não pode deixar de lamentar que a lei estatal que implementou a gratuitidade das creches do setor social e solidário para as crianças nascidas a partir de 1 de setembro de 2021 não se aplique a todas as crianças por “falta de vagas nas poucas ofertas disponíveis”.

“O Estado cria uma lei para acolher, de forma gratuita, todas as crianças em idade de frequentar creche, mas nem todas essas crianças vão poder beneficiar. Neste momento, na nossa realidade, estão 62 em lista de espera para entrar em Setembro e devemos abrir somente 10 ou 12 vagas. 50 crianças vão ficar de fora. É muito triste. E esta situação está a acontecer um pouco por todo o país”, frisa.

O paradigma nos cuidados a crianças até aos três anos tem vindo a alterar-se significativamente ao longo das últimas décadas. Com a idade da reforma a dilatar-se, os avós, que continuam em idade ativa, já não têm possibilidade de tomar conta dos netos nos primeiros anos de vida. E a figura das amas, muito requisitada nas décadas de 80 e 90 do século passado, desapareceu. A direção do Lar Major Rato entende que esta é uma oportunidade única para a instituição reforçar a sua resposta a este desafio. Neste sentido, e como principal projeto para o futuro, a IPSS pretende aumentar a capacidade da valência de creche, através do alargamento das suas atuais instalações.

“Queremos aumentar a creche, mas não conseguimos agir sozinhos. Temos de contar com o apoio e autorização da Segurança Social, que é tutela das IPSS. Esta nossa vontade tem o apoio da Câmara Municipal de Castelo Branco e da Junta de Freguesia de Alcains e cremos que, todos juntos, vamos conseguir que se torne realidade. Há uma luz ao fundo do túnel”, destaca a presidente da direção, Conceição Leão, acrescentando que tem esperança de que a inauguração do novo espaço se venha a concretizar no espaço de um ano.

A falta de um autocarro e outras dificuldades sentidas

Tudo tem o seu ciclo de vida. Antes da crise pandémica, as saídas em excursão eram frequentes tanto para os idosos como para as crianças da IPSS. A instituição tinha o seu próprio autocarro de 23 lugares, com plataforma elevatória. Mas o veículo ficou inutilizado devido à idade. Agora, que finalmente se estão a retomar as rotinas pós-pandemia, todos começam a sentir falta dos passeios exteriores.

“Antes, por esta altura, e até Junho, estaríamos com saídas todos os fins-de-semana. Estão todos a sentir falta, porque estavam habituados a essa atividade com muita frequência. Neste momento, há claramente uma dificuldade em fazer deslocar as pessoas fora da instituição. Conseguir o autocarro seria uma grande mais-valia para o transporte dos nossos idosos e crianças em qualquer tipo de deslocação”, salienta Conceição Leão, acrescentando que a direção está, no entanto, a tentar encontrar uma solução pelos seus próprios meios, numa ótica de autossustentabilidade da IPSS.

Outra grande dificuldade sentida prende-se com os altos custos necessários para a manutenção do edifício principal. A construção é centenária e não tem quaisquer plantas, o que dificulta a implementação de obras estruturais. “É um desafio constante. No ano passado, substituímos a canalização do setor B, agora estamos a fazer o mesmo no setor A. Também no setor A estamos a proceder à substituição do telhado, numa obra que foi comparticipada na totalidade pela Câmara de Castelo Branco, e que ainda se encontra em fase de execução”, detalha a presidente da direção.

São também projetos a curto prazo desta direção a transformação e equipamento de uma sala para as atividades de ginástica e fisioterapia, que conta inaugurar já em julho deste ano, e a candidatura submetida em 2022, a aguardar aprovação, ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), para um projeto de eficiência energética em edifícios de serviços.

A falta de mão-de-obra para desempenhar funções na área de prestação de cuidados a idosos começa também a afigurar-se como uma preocupação para a instituição. O trabalho não é atrativo, na medida em que implica um desgaste físico e psíquico elevado na gestão diária das fragilidades humanas e todas as doenças associadas, pelo que se sente já que os recursos humanos disponíveis começam a escassear.

“Cada vez há menos pessoal – e já nem falo de mão-de-obra qualificada – que concorra para este tipo de trabalhos. Como é que se pode dar resposta a uma taxa de ocupação altíssima nestas instituições se depois não há recursos humanos para poder gerir e poder cuidar dos utentes?”, questiona Marta Gonçalves, acrescentando que tem valido no imediato a mão-de-obra proveniente da imigração, sobretudo de nacionalidade brasileira.

A dirigente sublinha ainda que é urgente que o Governo reveja as categorias profissionais deste setor, uma vez que os vencimentos auferidos são insuficientes para compensar o grande desgaste dos funcionários.

“Nós substituímos o Estado nesta sua resposta social, ou seja, as responsabilidades são passadas para as IPSS, mas depois o Estado não revê as categorias, resultando em remunerações muito baixas. Outra coisa a ser pensada pelo Estado são os anos de serviço. Uma colaboradora aqui reforma-se com o mesmo tempo de serviço de outra categoria qualquer e tem um desgaste muito maior. Não pode ser. Infelizmente, tudo isto faz com que as pessoas acabem por apenas aceitar este tipo de cargos quando não têm outra opção”, finaliza a diretora técnica do Lar Major Rato.

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Filipa Minhós
Filipa Minhós
Licenciada em Ciências da Comunicação e Pós-graduada em Direito da Comunicação, conta no seu currículo com a edição de várias revistas de especialidade das áreas do desenvolvimento territorial regional e empresarialidade, e diversas publicações no âmbito do património cultural e imaterial das Beiras.

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