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O Carnaval em Goa: festivais que se abraçam

É tão bom ser viajante!

Respeitar as outras culturas, aprender com elas, esquecer a supremacia do chamado “ocidente”!

Numa das minhas diversas visitas a Goa durante a década de 90, algumas em representação da Universidade de Macau outras de férias, deambulava sem rumo de mota quando deparei com uma pequena capela no meio de vegetação densa e aromática. A porta estava entreaberta e ao espreitar quase tropecei numa das dezenas de pilhas de livros que se espalhavam pelo chão, dispostos em pequenos montes assentes num grande oleado. De cócoras, com largo avental sobre túnica branca, alguém que eu apenas vislumbrava entre a sagrada penumbra, distribuía os livros após atento e cuidadoso folhear. A tarefa era executada com prazer, saboreando cada consulta e demorando-se em alguma gravuras mais coloridas, que examinava tacteando levemente.

festa de leques, carnaval
Foto DR

Quando me pressentiu apresentou-se como Padre Ferreira – a túnica era afinal uma batina rendada – explicou-me ter sido contratado pela paróquia de Canacona para inventariar cerca de 100 livros que haviam sido oferecidos pela família de John Couto, em Nuvém, aldeia perto de Margão, há mais de 30 anos e que se julgavam desaparecidos. Eram diversas e bonitas obras sobre o carnaval e a sua ascendência grega e romana, bem como sobre festividades semelhantes noutras culturas.

Num sorriso aberto, contou-me o seguinte:

“Por toda a parte em Goa eram muito concorridas as festas das vésperas, celebração que apesar de ser católica tinha condimentos para também atrair hindus e gente de outras comunidades… sim, Goa era e é assim, mais que convivência existe muita partilha que por vezes se transforma em confusão para quem tenta entender. Era o caso das celebrações em Nuvém, principalmente as que aconteciam perto da casa do Sr. John Couto, por ocasião das vésperas de Nossa Senhora Mãe dos Pobres. Este fervoroso católico patrocinava uma Festa Dançante, a que chamava “Umbrella”, mas a de Outubro de 1959 foi bastante atribulada, pois o repertório da orquestra contratada não se coadunava com a sobriedade do festejo. Segundo me recordo seriam Dominick and His Jolly Boys, mas não tenho a certeza. E o que seguiu vale a pena ser contado.

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Era tudo muito bem organizado e seguindo os cânones religiosos!

Durante a veneração da imagem do orago era prática distribuir umas estampas do santo aos confrades que participassem na procissão do santo, vestidos de opas e murças da irmandade; mas o que atraía sempre o maior número de paroquianos, e ainda os residentes não-cristãos da aldeia, eram os fogos de artifício.

A qualidade da banda musical convidada também era muito importante, bem como a quantidade dos seus músicos. Havia situações em que os mais observantes podiam identificar os músicos mudos, a quem os goeses chamavam “mone mus” em konkani, que sopravam instrumentos sem produzir qualquer som, apenas para fazer número…

Mas voltando ao nosso Dominick, a verdade é que os sambas e marchinhas eram recebidos de soslaio, longe do entusiasmo a que a banda estava habituada e a adaptação à situação surgiu tarde demais! Embora começassem a sair “Pat Boones e Paul Ankas”, nunca mais John Couto quis saber de carnavais, nem nos livros!”

O meu interlocutor assistira a essa peripécia e desde então, sempre que podia, não perdia uma festa de Carnaval, muitas vezes abrilhantada pelo Dominick and his Jolly Boys. O curioso é que acabou por se interessar pelas envolvências do Intruz (termo konkani para Entrudo), tendo até chegado a publicar alguns estudos. Imaginem quando lhe fizeram a proposta para vir tratar das obras que o Sr. John Couto, após o referido embaraço, quisera afastar definitivamente da sua rica biblioteca!

Desempacotar livros é uma actividade reveladora. Surgem conteúdos que ultrapassam o seu texto, ora uma carta esquecida no seu interior ou uma flor que encantara o leitor num jardim, como se os livros tivessem o seu próprio destino. Aqueles tiveram de esperar décadas para voltarem a ser desejados.

Das páginas que pacientemente catalogava e classificava, algumas em português outras em konkani e meia dúzia em inglês, saltavam imagens e palavras que demonstravam a estranha similitude entre o Intruz e a festividade hindu Shigmo, versão goesa do Holi e que também se festeja em fevereiro ou março. Fruto de séculos de coexistência nem sempre aprazível – durante muitos anos existiu perseguição aos costumes hindus, que eram considerados incivilizados e mesmo proibidos – o colonizado foi resistindo através da parcial adaptação aos que lhe eram impostos, as duas festividades aproximando-se gradualmente e mesmo, em alguns aspectos, acabando por se misturar!

Mas foi isso que apaixonou o bibliófilo!

Escreve Carmo Noronha em “Escavando na Belga”: produto misto do encontro e, em certo sentido, da fusão das duas civilizações tão diferentes uma da outra, fruto de uma singular simbiose cultural que ainda está por estudar, será o goês tão alegre e chistoso em virtude do seu inconfundível substrato indiano ou antes mercê da quadrissecular influencia portuguesa que o pôs em contacto com a cultura latina, marcada, ao contrário da anglo-saxonica, com um cunho de leveza e maleabilidade?

São diversas as festividades religiosas, mas as mais celebradas em Goa são o Divali, Ganesh e o Holi.

O Holi é um festival hindu tradicional celebrado no primeiro dia de lua cheia do calendário hindu, onde se festeja a vitória do bem sobre o mal, o adeus ao Inverno e as boas vindas à Primavera, um agradecimento para que o futuro traga boas colheitas (em Goa corresponde ao fim da época seca e aproximação das monções). É, sobretudo, um dia de festa em que todos saem para a rua para brincar e divertir-se, arriscando-se a ficar tingido com as cores vindas do pó que é atirado para o ar. Vêem-se ainda bandas com instrumentos de percussão como ghumat e o droll, e uma espécie de procissão com carros de bois enfeitados com folhas de palmeiras. O pó e a música são esfuziantes e contagiavam!

Note-se que ambas as festividades também serviam para, sub-repticiamente, criticar os poderes económicos e políticos locais, o que gradualmente se foi perdendo pois começaram a ser subsidiadas por essas empresas e autoridades; mais tarde, com a liberalização dos costumes durante os anos 60, terão também surgido exageros e alguma promiscuidade entre os participantes do Intruz. Mas já na altura havia quem brincasse de forma considerada excessiva para as linhas vermelhas de então…

Padre Ferreira recorda-se duma Festa de Leques, talvez a mais antiga folia de Carnaval organizada em Goa, pois data do princípio do sec. XX em Sintequim.

A festa começara com os Azes do Ritmo, seguindo-se Dominick & His Jolly Boys, aqui a “jogar em casa”, abrilhantando diversos tipos de dança, fosse spot dance (rumba, salsa, etc) ou travelling dance (valsa, foxtrot, polia, samba, etc). Havia alegria, voavam coloridos confetes e bandeirinhas, crianças e adultos mascarados pulavam e bailavam ao som da orquestra e Ferreira deixava-se envolver por essa inocente loucura, petiscando bem picante xacuti com chapati ou pão (sim, em Goa havia pão à venda, sem dúvida o único local em toda a Índia onde tal seria possível).

“De repente e vindo não sei de onde, começo a ouvir um ritmo hipnótico, repetitivo, mistura de tambores e sons metálicos, campainhas, muitos risos e panos de cores ondulantes. Por vezes a cadência abrandava mas logo acompanhava corridas e gritos que interrompiam cânticos à deusa. Os sons iam-se aproximando da nossa festa, invadiam-nos, entrelaçando-se com a toada de Dominick. A certa altura eu já estava confuso, parecia uma charada, não percebia em que alegria estava mas deixei-me transportar duma festa conhecida para outra de raízes distintas, mas que na minha cabeça era similar na sua forma e conteúdo. Espantoso como inesperadas miragens pagãs e bárbaras me aproximaram de Deus, foi algo divino! Assim como apareceu o cortejo sumiu e as rumbas e calypsos voltaram à sua pureza!

Não me lembro, mas possivelmente terei tido alguma ajuda duma secreta seiva chamada bhang, mistura de leite com açúcar e uma espécie de achiche, que alguém me terá oferecido. Embora mais característica do festival Shivratri, também se encontra no Shigmo por acontecerem em datas próximas…”

Sublinhe-se que ainda agora é em Goa o único local da Índia onde se celebra o Carnaval. Não percam!

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Joaquim Correia
Joaquim Correia
“É com prazer que passo a colaborar no jornal Regiões, até porque percebo que o conceito de “regiões” tem aqui um sentido abrangente e não meramente nacional, incluÍndo o resto do mundo. Será nessa perspectiva que tentarei contar algumas histórias.” Estudou em Portugal e Angola, onde também prestou Serviço Militar. Viveu 11 anos em Macau, ponto de partida para conhecer o Oriente. Licenciatura em Direito, tendo praticado advocacia Pós-Graduação em Ciências Documentais, tendo lecionado na Universidade de Macau. É autor de diversos trabalhos ligados à investigação, particularmente no campo musical

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