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O Gana hoje

Quando há quatro anos cheguei ao Gana, em Agosto de 2018, encontrei um país a crescer quase 20%ao ano. A inflacção rondava os 6 %, a moeda local estava sem variações em relação ao dólar fazia quase 2 anos.Quando cheguei 1 euro comprava 5 cedis (moeda local).

O Gana é um país rico em matérias primas, ouro, petróleo, diamantes, bauxite, manganésio, cacau, fruta, pesca, madeira nobre entre os principais recursos.

frutas nativas de gana
Foto DR

Neste momento, em 2022 o Gana é mesmo o maior produtor de ouro em África após ultrapassar a África do Sul em 2019, é o segundo maior produtor de cacau, apenas atrás da costa do Marfim. Ou seja, o Gana é um país rico. Mas a riqueza natural contrasta com políticas desastrosas.

No índice de corrupção de 2021

O Gana aparece na posição 73 entre 174 países, Portugal por exemplo aparece em 32 lugar numa lista liderada pela Dinamarca, a nação menos corrupta do mundo, segundo este índice.

4 anos após chegar ao Gana, a situação alterou – se significativamente, mas apenas se tornou realmente visível este ano de 2022. A moeda desvalorizou 4 vezes, a inflacção está nos 37.5% e aumenta uma média de 5 pontos por mês, só este ano. Se um euro comprava 5 cedis quando cheguei, hoje o mesmo euro compra 13.56 cedis.

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O Gana é apontado como um modelo de governação em África.

Nunca viveu uma guerra civil, tem eleições a cada 4 anos e não ganha sempre o mesmo, a democracia está instalada, as instituições funcionam e a forma como abordou a pandemia foi elogiada por todo o mundo, sendo claramente um dos países melhor sucedidos nesse aspecto. O Gana tem a sede em Africa das grandes multinacionais. O Twitter ainda este mês inaugurou em Accra um seu escritório para o continente. O Google tem aqui o seu centro de estudos para a inteligência artificial.

Homens nativos de Gana
Foto DR

É um país pacífico, tranquilo e seguro. Então porque é que o Gana chegou a este ponto? A explicação não é fácil e assenta em vários aspectos.

Primeiro a pandemia.

Quando o covid 19 chegou o Ghana fechou fronteiras, terrestres, marítimas e aéreas por um ano, em África a economia tradicional ainda representa uma grande fatia da economia do país, a chamada cash economy esteve parada praticamente um ano.

Não era possível fazer o que se fazia antes com os países fronteiriços, Togo, Burkina Faso e Costa do marfim. As filas de camiões para a Nigéria pararam e o pequeno comerciante ficou sem possibilidade de fazer negócio.

O governo sabendo isso tomou medidas, isentou a maioria da população de impostos durante o primeiro ano de covid, não cobrou pela electricidade e pela água, durante 6 meses não se pagou escolas ou universidades.

Se é verdade que o covid foi controlado com um sucesso extraordinário o pós covid está a revelar-se tormentoso para o País.

Todas essas medidas estão agora a vir ao de cima. Estima-se que os impostos não cobrados durante o período do covid atinjam quase 25% do produto interno bruto, a paragem, quase total do negócio tradicional, a tal cash economy, impediu a entrada de muita divisas país, aqui, como na maioria da África anglofona, negoceia-se em dólares.

A juntar a tudo isto chegou a guerra na Ucrânia no início de 2022

A Ghana e as suas indústrias são muito dependentes de matérias primas básicas, commodities, que compravam em grande percentagem na Rússia, Ucrânia, Turquia e China.

A bola de neve aumentou de tal forma que tudo se descontrolou.

O FMI chegou ao país a pedido do governo em Julho, as medidas serão anunciadas em breve mas um discurso do presidente Nana Akufo-Addo já deixa antever algumas das principais medidas. Agressiva cobrança fiscal, medidas proteccionistas aos produtos ganeses taxando ainda mais as importações.

Apoio a Gana com crédito baixo à indústria local.

Renegociação dos contratos de exploração do petróleo, ouro e outras matérias primas. Parar a desvalorização da moeda através de mais um empréstimo. A má gestão em tempo de vacas gordas levou um dos países da maior sucesso em África para um limbo.

Com novas eleições dentro de 2 anos, este governo, e este presidente, vão ser geridos pelo FMI, a grande questão é:

Será suficiente?

PAÍS GANA
Foto DR

Crónica: Por Pedro Cid/ Jornalista

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Pedro Luz Cid
Pedro Luz Cid
Jornalista da imprensa escrita, Web e rádio.

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