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Paulucha

Senhor, a Paulucha quer-Vos dar uma palavrinha. Ó mãezinha doCéu! Outra vez essa tontinha, mamã!?… Que estou a descansar, mande-a passar mais tarde. O que é agora? Diz que está há tempo demais no Purgatório, Deus, tem rezado diário, que já cá havia de estar! Eu Me valha, Senhora, Jesus! Sim, Pai, dizei! Nada, nada, filho, era um desabafo, que isto como cá vai!… Nossa Senhora! Dizei, Senhor! Nada, não, mãe! São desabafos divinos!

Paulucha
DR

Devia estar a levar uma tosa robusta, o Cristo, que o adversário era só por sorrisos. Vá lá, Jesus, concentra-Te mais, é só o que falta! Mas ao Deus filho outras preocupações o tomavam. Já falara com o Pai. Ia tomar uma águinha com Maria Madalena. Estava até um tanto instável, emocionalmente. Já na véspera a coisa não correra melhor, com Barrabás. Fora autorizado a jogar com ele, mas o outro tinha lá artes! Quem sabe não esquece.

Neste emmeio, já a Paulucha tinha ido à presença do Pai.

Deus esforçava-se agora por estar mais calmo. Logo lhe foi dizendo que atentava às suas orações, mas que também já lhe dissera, amiudadas vezes, como haviam de ser feitas as preces. Eu entendo-te bem, rapariga, não tens que inventar. Tem uma conversa normal com Migo, nem vale a pena avançar por rodriguinhos. Farás assim, Senhor, perdoa as minhas faltas, os maus pensamentos que tive em vida, as palavras ditas com crispação, até ofensa, as minhas atitudes, no dia-a-dia, de enganar o próximo, de o explorar, de lhe não perdoar; e, o que não é menos, o pecado por omissão, escondendo faltas, esgueirando-me a obrigações que tinha. A intercessão de Maria – a Virgem Santíssima – dos Anjos e Arcanjos celestiais e dos Santos devem entremear esta ligação com Migo, solicitando tu, aos teus santinhos por devoção, que intercedam a rogo junto de Mim. Algumas faltas nem por Mim passam, que todos aqui estão legitimados a agir, exceptuando as falhas mais graves, que assumem uma dimensão a semelhar um Assunto de Estado, requerendo uma reunião de Conselho Celestial. Agora, compara isto ao que tu fazes: Senhor, ajudai-me, levai-me ao céu, E começas a debitar Pai Nossos e Avé Marias à ganância. Enquanto isso, vais te imaginando a galambar nos braços do Alfredo, esse gabiru, que continua vivendo e enganando a eito, todas caidinhas, que nem tontas. E tu aos ais, por prazeres, intercalados no Santa Maria, mãe de Deus… Isso são lá jeitos de rezar!? Quantas vezes já to disse? Estudasses!

Mas…, Deus, lá na Terra, todos rezam por igual, com essa bitola, por overdose!

Eu sei, Eu sei! É como a cantar o hino Nacional? Sabem lá vocês o que querem dizer com “Levantai hoje de novo/ o Esplendor de Portugal/ Entre as brumas da memória! Entre quem?… Egrégios avós, Isso é o quê? Olha, rapariga, quero que Me fales naturalmente, que assim gosto que se Me dirijam, por preces. E intercala com silêncio e reflexão, que Eu te responderei. Agora, essa coisa mecânica, de debitar frases por orações, atabalhoadamente, sem saberdes o que dizeis, isso não é obra. Demais a mais, essa coisa de Me rezar a pensar nos tipos todos que te esfarraparam enquanto viveste – foram poucos, foram sim senhoras! -, isso vale zero. Disse-te isso os milhares de vezes que aqui vieste. Assim não há remição. Olha em teu redor! Repara na enchente que vai por esse Purgatório, só comparável às urgências hospitalares em Portugal e à compra de bilhetes para os ColdPlay e para o Jamor! Gente que já nem conta tem, os anos há que se arrastam por aí! Jesus!

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Sim, Pai, dizei!

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João Reis
João Reis
Exerce a actividade de docência lectiva nas disciplinas de Português, Latim e Grego Clássico desde 13 de Outubro de 1987. Coordenador do projecto do Jornal de Escola de 1987 a 2010. Presidente da Cáritas Inter-Paroquial de Alcains desde 2013.

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