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Um abraço entre culturas

Está na altura de contar um pouco mais da história do II Raide Macau Lisboa, até porque acabou de ser editada uma banda desenhada, em língua portuguesa e chinesa, que relata toda a aventura. Encontra-se à venda em Portugal, em Macau e no resto da China.

Há pouco mais de trinta anos um grupo de dez portugueses, macaenses, chineses e soviéticos ligou Macau a Portugal, atravessando países em convulsão: a R. P. China tentava ultrapassar problemas criados com a luta de estudantes em Tianamen e a URSS caminhava para o seu desmembramento como pátria.

Cidades e lugares históricos da China, do Médio Oriente e da Europa; milhares de quilómetros rasgando os desertos de Gobi e Karakum; acidentes que podiam ser fatais; pequenos e grandes problemas que tinham de ser resolvidos, democraticamente e no momento, por dez homens de culturas diferentes, onde o natural cansaço e as saudades de casa por vezes complicavam essa rotina diária; contacto constante com o povo da rua, que se encantava e nos encantava pela partilha de saberes (sim, claro, e de sabores diversos)!

A URSS experimentava novos tempos com Gorbachov! A China insistia, apesar de Tiananmen, na abertura ao mundo! Partimos em 27 de julho de 1990 e Tiananmen acontecera em 4 de junho de 1989.

A Dança do Leão, que desejava boa sorte aos viajantes, saltando em redor dos três veículos pintados com cores portuguesas, também manifestava o desejo de Macau poder manter a sua identidade após 1999. O Governo de Macau esteve presente através do Secretário-Adjunto Jorge Coelho, bem como representantes da comunidade chinesa.

Em Pequim, fomos recebidos na sede da CIST e por outras autoridades chinesas, onde foi realçado que iniciativas como a nossa “em muito contribuíam para uma boa harmonia entre os povos”.

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Na Embaixada Portuguesa reunimos com o substituto do embaixador, o Dr. Luís Carmo, que estava acompanhado pelo Dr. Luís Magalhães Godinho, do Grupo de Ligação, pelo Dr. Fernando Correia de Oliveira, correspondente da Lusa, e pelo adido cultural, Dr. Jorge Morbey, entre diversas outras personalidades. Falámos sobre as convulsões na China, mas principalmente debruçámo-nos sobre o que todos poderíamos fazer no sentido de deixar em Macau marcas das relações luso-chinesas, para que a sua identidade própria se mantivesse.

Foram 50 dias na estrada atravessando dois continentes, mais de 20.000 km de maravilhas, poeira e problemas, optando por itinerário diferente do I Raide Terrestre, concluído em 1988. Também tínhamos missão diferente: promover a cultura de Macau. Foram oferecidos livros e lembranças, organizámos pequenas exposições bibliográficas na Biblioteca Municipal de Zengzhou, na Biblioteca Escolar de Urumqi e no Centro de Documentação da CTS em Pequim, além de contactarmos com diversas pequenas bibliotecas e arquivos das diversas províncias chinesas; no Centro de Documentação da Intourist, na Biblioteca de Tiblissi e na Biblioteca Nacional Estatal de Literatura Estrangeira em Moscovo (entre diversas outras bibliotecas e arquivos na então URSS), bem como documentação diversa e recordações do II Raide Macau-Lisboa nas Embaixadas Portuguesas em Pequim, na URSS, Hungria e Espanha. Diversas destas entidades também nos ofereceram informação local, de onde se realçam as duas publicações oferecidas pela Biblioteca Escolar de Urumqi, bem demonstrativas do interesse na partilha cultural subjacente ao abraço entre culturas que caracterizava a expedição.

Mas foi junto da população que a nossa presença se mostrou mais significativa: distribuímos folhetos informativos em várias línguas a quem connosco se cruzava; encantámos as crianças com lembranças que simbolizavam a identidade própria de Macau; explicámos, com a ajuda do guia de cada província chinesa ou com a preciosa tradução dos nossos companheiros soviéticos, o que representava aquele pequeno território junto a Hong Kong (para melhor ser identificado…)! Estamos certos que para muitos dos que nos ouviram, foi a primeira vez que ouviram falar em Macau!

Foram nove grandes caixas com livros, folhetos e lembranças variadas, oferecidas pela Comissão Comemorativa dos 500 Anos dos Descobrimentos Portugueses, pela Biblioteca Central de Macau, pelo Museu Marítimo, pela Universidade da Ásia Oriental (atual Universidade de Macau), pela Fundação Oriente, pelo Instituto Cultural de Macau e pelo Grande Prémio de Macau.

Como já referimos, faziam parte da equipa dois jornalistas da Rádio Moscovo, para onde periodicamente comentavam tudo o que se ia passando. O filme da aventura, da responsabilidade da Televisão de Macau e realizado por James Jacinto, foi exibido em diversos cineclubes do mundo, na RTP2 e na RTP Internacional.

Os Pageros foram pintados pelo ilustrador Victor Marreiros, que também foi responsável pelas caricaturas do autocolante do Raide. Em junho de 1991, nas instalações dos Serviços Turismo de Macau, a memória do Raide esteve em exposição, o mesmo acontecendo na Missão de Macau, na capital portuguesa, em Junho de 1992. Mais tarde, em 2010, vinte anos depois, a Junta de Freguesia da Trafaria organizou uma exposição que incluía um dos Pageros, agora na posse do raidista António Calado.

O livro de banda desenhada, agora publicado, conta todas as histórias à volta dessa expedição de Macau a Lisboa, algumas bem atuais… ou não estivesse a R. P. da China a apostar na Nova Rota da Seda!

união de culturas
Foto DR
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Joaquim Correia
Joaquim Correia
“É com prazer que passo a colaborar no jornal Regiões, até porque percebo que o conceito de “regiões” tem aqui um sentido abrangente e não meramente nacional, incluÍndo o resto do mundo. Será nessa perspectiva que tentarei contar algumas histórias.” Estudou em Portugal e Angola, onde também prestou Serviço Militar. Viveu 11 anos em Macau, ponto de partida para conhecer o Oriente. Licenciatura em Direito, tendo praticado advocacia Pós-Graduação em Ciências Documentais, tendo lecionado na Universidade de Macau. É autor de diversos trabalhos ligados à investigação, particularmente no campo musical

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