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Um ano depois de ter começado a guerra, a Ucrânia (ainda) precisa de nós

Os milagres acontecem

Desde há um ano que a guerra na Ucrânia nos entra casa dentro pela televisão, nos noticiários, nas reportagens, mas sobretudo através das lágrimas e dos lamentos dos que choram os seus mortos, dos que viram bairros inteiros serem destruídos. Um ano depois de a guerra ter começado, ainda ninguém consegue dizer quando é que tudo isto vai acabar…

Guerra na Ucrânia
Foto DR

Sempre que o telefone tocava em Köningstein, na Alemanha, na sede internacional da Fundação AIS, logo nos primeiros dias depois de a invasão da Ucrânia ter começado, percebia-se que havia inquietação e medo no outro lado da linha. Padres, irmãs, bispos… todos os que ligavam para a Fundação AIS estavam em sobressalto. Não era para menos. A guerra tinha voltado ao coração da Europa. Para a Fundação AIS, o dia 24 de Fevereiro de 2022 marcou também o início de uma grande operação de solidariedade para com um povo que teve de pegar em armas para defender a sua independência, a sua liberdade. Todos os 24 secretariados da Fundação AIS espalhados pelo mundo responderam a uma só voz face ao apelo que chegava da Ucrânia. Milhares de benfeitores ajudaram a construir uma formidável ponte de solidariedade para com a Igreja, para com as comunidades mais atingidas pela destruição, pelos bombardeamentos. Nos primeiros meses, respondendo aos pedidos de ajuda mais prementes, foram enviados geradores, aquecedores, fornos portáteis, automóveis e minibus para a distribuição da ajuda de emergência, mas também equipamentos para a renovação de cozinhas, nomeadamente em mosteiros e paróquias que passaram a acolher, por vezes, centenas de pessoas. Nada faltou. Desde os cobertores à organização de colónias de férias para que crianças e adolescentes conseguissem ter um momento de alegria, uma pausa na violência da guerra, à construção de espaços de culto e locais de abrigo, tudo aconteceu. Ao todo foram mais de 9,5 milhões de euros em ajuda directa de emergência.

Falta tudo menos a esperança

Os números são eloquentes. 7.447 padres diocesanos, religiosos e religiosas e colaboradores diocesanos foram apoiados directamente e isso reflectiu-se no auxílio prestado pela Igreja às suas comunidades. Mas a ajuda humanitária com o selo da Fundação AIS chegou a mais de 15 mil pessoas, desde refugiados, a crianças, jovens e idosos, a seminaristas…. Foram centenas de famílias. Estes números parecem enormes mas são apenas uma gota nas necessidades brutais de um povo que, de um dia para o outro, viu cidades inteiras reduzidas a escombros, destruídas por bombardeamentos sucessivos. Recentemente, a Fundação AIS organizou uma conferência ‘online’ sobre a Ucrânia, sobre os maiores problemas e desafios que se colocam à Igreja neste país. D. Sviatoslav Shevtchuk, Arcebispo primaz da Igreja Greco-Católica Ucraniana, e D. Visvaldas Kulbokas, o Núncio Apostólico, falaram de um país onde fala quase tudo menos a esperança. E destacaram a importância da ajuda de instituições como a Fundação AIS. Calcula-se que cerca de 15 milhões de ucranianos tenham já saído do país. Ficaram, em muitos lugares, os mais pobres, os mais indefesos. O núncio deu o exemplo de que há muitas pessoas, especialmente nas zonas mais flageladas pelos combates, que passam fome. A Igreja tem voluntários que procuram auxiliar todas estas famílias. “Quando trazem pão, as pessoas começam a comer logo ali. Há falta de pão, há falta de água…” E há falta de electricidade. A Rússia tem usado como táctica de guerra a “destruição metódica de infraestruturas”. Muitas cidades e vilas e aldeias passaram a estar muitas horas, por vezes mesmo dias, sem luz, às escuras. É por isso que os 205 geradores que a Fundação AIS fez chegar à Ucrânia foram tão essenciais…

Ajudar a sarar as feridas

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“A prioridade mais importante, aquilo que colocamos em primeiro lugar, é assistência pastoral para ajudar a sarar as feridas das pessoas. Quase 80% das pessoas na Ucrânia precisam de algum tipo de reabilitação, precisam de ajuda para superarem os seus traumas psicológicos, físicos ou outros”, disse o arcebispo Sviatoslav Shevchuk. “A nossa tarefa, como Igreja, é ajudar a curar as feridas da nossa nação”, acrescentou o prelado. Nesta sexta-feira, dia 24, assinalou-se um ano de guerra na Ucrânia. Segundo a ONU, no início de Janeiro já estavam confirmados 6919 civis mortos e mais de 11 mil feridos. Falta contabilizar o número de soldados mortos e feridos de ambos os lados. Ao fim de um ano, sobreviver num país em guerra, com uma brutalidade por vezes inimaginável, é já um feito assinalável. D. Sviatoslav disse-o na conferência promovida pela Fundação AIS. “Não sei como sobrevivemos a um ano de guerra. É um milagre ainda estarmos vivos…” Mas quando foi questionado se acredita que a paz pode chegar já este ano e acabar com toda esta angústia, apenas sorriu e disse: “os milagres acontecem…”

Paulo Aido

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Paulo Aido
Paulo Aido
Jornalista da imprensa escrita, Web e rádio.

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