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Titanic de eucaliptos em chamas

O primeiro-ministro português afirmou ontem, embrulhado numa chuva dissolvente de vergonha, que tinha sido “o homem do leme” aos comandos de Portugal, enquanto o país ardia mais do que sal nas feridas. E a imagem foi tão brilhante quanto um fósforo esquecido numa refinaria, pois quem se quis coroar de almirante acabou a cheirar a sardinha mal-amanhada. Na verdade, a frase nasceu já cadáver, mas ninguém lhe fez o favor de lhe escrever o obituário político, assim ficou, a boiar como uma bóia furada em mar alto. Desperdício…

Ninguém soube responder a Montechega. A piada fazia-se sozinha, mas a pobreza intelectual das oposições não lhe disse o óbvio. E o óbvio era isto: «Claro que era o homem do leme. Mas transformou Portugal num Titanic que embate em eucaliptos a arder, atolou o país em mentiras ditas pela sua ministra e segunda imediata e, por fim, adornou-nos a todos, sendo o primeiro a salvar-se, como é seu costume». É como se o capitão gritasse “mulheres e crianças primeiro”, mas ao traduzir em governês soasse a “eu já vou no bote, vocês que se afoguem devagarinho”. Talvez a nova bandeira nacional devesse ser uma âncora partida sobre fundo de cinzas.

Mãos de banho-maria e orelhas presidenciais

Ou pior: «Era o homem do leme até o leme começar a arder-lhe nas mãos. Nesse dia, foi pôr as mãozinhas a banhos, para apaziguar a queimadura. E não fosse o Presidente ir buscá-lo por uma orelha, o senhor ainda hoje estava a olhar para a Manta Rota, sem perceber que não estava rota, mas sim queimada». O retrato é digno de uma tela perdida de Salvador Maluco, pintor oculto que em 1974 expôs o quadro “Homem que confunde praia com cinzeiro”, aclamado pela crítica invisível de jornais policopiados. O país, fiel à sua vocação de tragicomédia, ri-se e chora em simultâneo, como um palhaço asmático preso num semáforo vermelho.

Oposição de opereta com vozes de castrato

Pobre oposição. Rui Tavares, monocórdico, quis responder-lhe em tom sério, como quem lê bula farmacêutica numa messe para defuntos. Mariana Mortágua e aVentura embrulharam-se numa discussão de cabotagem sobre a faixa de Gaza, provando que a geografia política é o melhor tranquilizante nacional. Paulo Raimundo assumiu sentido de Estado perante não-estadistas, um gesto tão útil quanto um extintor de confetis. E o magnífico Brilhante Dias, sem se lembrar de Natália nem de outros brilhantes tribunos (lá estou eu outra vez, brilhante não foi piada, saiu-me), falou sabe-se lá de quê, pois ninguém percebeu nada daquele castelhano roufenho, a não ser que estava, ele próprio, perdido em tradução simultaneamente defeituosa e de batatas nas bochechas airosas.

Socialistas alquebrados e liberais desdentados

A péssima oposição faz um Governo fraco. E faz fraca a forte gente da Esquerda e do Centro, como se todos fossem figurantes em opereta soviética encenada por palhaços de feira. Estes, em pânico, ao ver quem já nada teme: o homem do leme, treme. Alcoforados, a ver se passa depressa a dor de os ver assim, vão encolhendo os ombros, os verdadeiros socialistas e os verdadeiros conservadores, como quem observa a última tourada sem toiros. Até os verdadeiros liberais não sabem como responder a tanta disparatadela, preferindo investir em silêncio, acções do nada e criptomoedas invisíveis ao comum dos mortais.

Canoístas em vez de marinheiros

No fim, só resta uma solução com sentido: entregar o país aos canoístas portugueses, medalhados, para coordenar os incêndios. Afinal, eles sabem remar em águas turvas, equilibrar-se em troncos incandescentes e, sobretudo, não largam o remo ao primeiro cheiro a fumo. Com eles, Portugal passaria a ter um leme de verdade, ainda que reduzido a pá de alumínio, mas resistente ao fogo da incompetência política. E quando perguntarem quem governa, poderemos responder com orgulho surreal: “É o K2 de Montemor, senhor, e não o Titanic dos eucaliptos”.

Em resumo, o primeiro-ministro quis ser o homem do leme, mas acabou apenas como nadador-salvador de si próprio, deixando-nos a todos em banhos de cinza. Se isto é liderança, então até o pato-bravo da aldeia tem mais vocação para Almirante. Talvez devêssemos aceitar o destino: remar com canoas olímpicas por entre as chamas, porque, ao menos, esses não se atiram borda fora à primeira onda de ridículo. Afinal, Portugal merece um leme que não se derreta ao calor das metáforas. Abraço aos “Xutos”, roubados sem dó. Mas falámos sobre pontapés.

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Joao Vasco Almeida
Joao Vasco Almeida
Editor Executivo. Jornalista 2554, autor de obras de ficção e humor, radialista, compositor, ‘blogger’,' vlogger' e produtor. Agricultor devido às sobreirinhas.

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