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O Escândalo das Floreiras: A Crónica de Uma Descaracterização Anunciada

A recente publicação do presidente da câmara, Leopoldo Rodrigues, no Facebook, onde ele expressou satisfação com a obra finalizada das célebres floreiras no antigo passeio verde, é um verdadeiro caso de estudo de como uma má gestão pode desfigurar um espaço público. A sua comoção visível nas fotografias e no texto que acompanhou o post deixou-me quase à beira das lágrimas, mas não pelas razões que ele esperaria

Uma Obra Mediocre e Despropositada

Quem não sabe fazer melhor tem, de facto, o direito de se enaltecer por uma obra fraca. No entanto, a requalificação realizada é uma verdadeira intervenção arquitetónica desastrosa. A instalação das floreiras alterou completamente o carácter original do espaço, que deveria incluir um mirante em vidro, oferecendo amplitude e uma vista desimpedida. Esta alteração não só desrespeitou o projeto inicial, como também resultou numa solução esteticamente questionável e funcionalmente deficiente.

As árvores, que eram para ser plantadas na área de relva já em estado de maturidade e com copas desenvolvidas, acabaram por ser substituídas por estacas de vegetação raquítica, instaladas em estruturas grotescas e desproporcionadas. Estas floreiras altas e desengonçadas são um insulto ao bom gosto e à lógica de urbanismo. Os bancos, compostos por quatro ripas de madeira sobre uma armação de ferro, parecem mais apropriados para um cenário de filme distópico do que para uma zona histórica que se pretendia revitalizar.

Edifícios Devolutos e a Falta de Planeamento

Além destas desfigurações, há ainda a questão dos edifícios devolutos que rodeiam a área. Estas construções abandonadas, a cair aos pedaços, contribuem para um ambiente decadente que afasta qualquer potencial de encanto que a zona poderia ter. Se houvesse um verdadeiro esforço de revitalização, com um “lavar de cara” destes edifícios, a zona poderia transformar-se num ponto de interesse vibrante e acolhedor para passeios pelo centro cívico.

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Uma Gestão Catastrófica e Sem Visão

A gestão do presidente Leopoldo Rodrigues, ao longo dos três anos do seu mandato, tem sido uma sequência de erros e decisões polémicas. A colocação destas armadilhas urbanísticas é apenas um exemplo de como as suas políticas deixam um rastro de problemas para quem vier a governar a câmara no futuro. É uma estratégia de desresponsabilização política, onde as intervenções são feitas sem consideração pela herança urbana e pelas necessidades reais da comunidade.

Promessas Vazias e Megalomania

Retornando à questão da zona histórica, um dos grandes trunfos de campanha de Rodrigues foi a promessa de instalar escadas rolantes envidraçadas para facilitar o acesso ao Castelo. Esta ideia, que soava futurista e inovadora, foi largamente aclamada durante a campanha. No entanto, o que se vê hoje são apenas estas estruturas aberrantes, as “mamarras florais”, sem qualquer sinal das prometidas escadas rolantes.

A Ameaça à Calçada Portuguesa

Outro ponto que merece destaque é a crítica à possibilidade de cobrir a calçada portuguesa. Felizmente, este atentado ao património não foi levado avante. Se tivesse sido, teríamos um pavimento em tons de cinza, pintado com tinta acrílica, mais apropriado para um hospital do que para um jardim histórico. A psicopatia urbana seria outra, transformando um símbolo cultural em mais um elemento despersonalizado da cidade.

Talento Local Ignorado

É particularmente doloroso ver este descalabro quando sabemos que Castelo Branco é terra de grandes arquitetos e artistas, muitos dos quais dedicaram suas vidas à história e à arte urbana. Infelizmente, alguns destes talentosos profissionais tiveram que buscar outras paragens, onde seus talentos são reconhecidos e valorizados, livres das artimanhas e favoritismos partidários que imperam na nossa cidade. Estes verdadeiros artistas, que cresceram aqui e conhecem a cidade profundamente, poderiam ter contribuído significativamente para uma revitalização autêntica e respeitosa.

Conclusão

A obra das floreiras no antigo passeio verde é um símbolo da incompetência e falta de visão do presidente Leopoldo Rodrigues. Esta intervenção não só desrespeita o projeto original, como descaracteriza um espaço de grande valor histórico e cultural. A população merece mais do que promessas vazias e soluções estéticas questionáveis. É urgente que se faça uma reflexão profunda sobre o rumo que se quer dar à gestão urbana, valorizando o património e as verdadeiras necessidades dos cidadãos. O futuro da nossa cidade não pode ser hipotecado por decisões medíocres e de curto prazo. Temos talento local que deve ser valorizado, e não ignorado em prol de interesses obscuros.

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Fernando Jesus Pires
Fernando Jesus Pireshttps://oregioes.pt/fotojornalista-fernando-pires-jesus/
Jornalista há 35 anos, trabalhou como enviado especial em Macau, República Popular da China, Tailândia, Taiwan, Hong Kong, Coréia do Sul e Paralelo 38, Espanha, Andorra, França, Marrocos, Argélia, Sahara e Mauritânia.

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