Parece um simples coelho, mas é muito mais do que isso. O coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) está a desaparecer de Portugal e Espanha, e com ele pode ir parte do equilíbrio dos ecossistemas mediterrânicos. A espécie do coelho-bravo é consideradao uma espécie-chave multifuncional no ecossistema mediterrânico da Península Ibérica, dada a sua importância e papel seja como presa, como modificador de paisagem ou como dispersor de sementes. Em Faro, cientistas, gestores ambientais e até caçadores reuniram-se no European Rabbit International Workshop para encontrar soluções. A pergunta que pairava no ar: como salvar uma espécie que é, ao mesmo tempo, vítima e protagonista dos nossos campos?
Desaparece onde é preciso, prolifera onde estorva
Há regiões onde já quase não se vê um coelho-bravo. Noutras, multiplicam-se a ponto de invadir cultivos e estradas. “É uma espécie paradoxal”, confessa José Calado, do ICNF. “Sem ele, o lince-ibérico e a águia-imperial passam fome. Mas onde abunda, os agricultores perdem o sono – e as colheitas.” A solução? Um novo sistema de monitorização, desenvolvido pelo projeto LIFE Iberconejo, que já permitiu mapear populações em tempo real. “É como um censo permanente”, explica Calado. “Sabemos onde faltam coelhos e onde são demais, e agimos em conformidade.”
Caçadores e biólogos, lado a lado
Nesta história, os protagonistas são improváveis. Mais de 1400 pessoas – desde vigilantes da natureza a caçadores – aprenderam a contar coelhos, identificar doenças e gerir habitats. “No Alentejo, há pastores que agora são os nossos melhores olhos no terreno”, conta uma técnica do ICNF.
Do outro lado da fronteira, Ramón Pérez de Ayala, da WWF Espanha, lembra que “isto não é um ponto final, mas uma vírgula”. O projeto termina, mas o desafio fica: como manter viva esta rede de conhecimentos?
Nas salas do workshop, falou-se de câmaras térmicas para detetar doenças, de apps para reportar avistamentos e até do impacto dos coelhos nos aeroportos. “Há dez anos, isto pareceria ficção científica”, ri-se um investigador da Universidade de Évora.
Mas no final, a conclusão foi simples: não há fórmula mágica. Só com ciência, diálogo e muito trabalho de campo se evitará que o coelho-bravo vire lenda — ou praga.
O que vem a seguir? O projeto deixou ferramentas, dados e uma lição clara: na natureza, como na vida, os equilíbrios são frágeis. Agora, é não baixar os braços — nem os olhos do chão, onde os coelhos (ou a falta deles) contam uma história que nos diz respeito a todos.
Os coelhos-europeus têm hábitos predominantemente noturnos, limitando a sua atividade diurna às proximidades das tocas ou a áreas de vegetação densa, como estratégia para evitar predadores. A sua visão, adaptada à pouca luminosidade, favorece a alimentação e o deslocamento durante a noite. Vivem em grupos pequenos, com duas a dez indivíduos por toca, uma organização que aumenta o sucesso reprodutivo.
A territorialidade e a agressividade desempenham um papel importante no amadurecimento dos coelhos e na sobrevivência da população. A competição intraespecífica ocorre principalmente por recursos alimentares, o que contribui para a alta taxa de mortalidade da espécie. As fêmeas tendem a ser mais territoriais que os machos, embora não defendam áreas de uso frequente. A marcação de territórios é feita por meio de montes de esterco.