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Saltos altos era para homens. Hoje têm “medo”.

Apesar de aparições recentes em desfiles e por figuras públicas, os saltos altos permanecem maioritariamente tabu para homens. A sua história, contudo, revela uma origem masculina ligada ao estatuto, levantando questões sobre as normas de género actuais em Portugal e no mundo.

As recentes semanas de moda, como a de Paris, voltaram a colocar os saltos altos nos pés masculinos, visíveis tanto nas passerelles, como em convidados de eventos de marcas como a Louis Vuitton. Estas ocorrências, vistas por muitos como progressistas ou uma subversão das normas, contrastam com a realidade quotidiana e com uma história secular onde o salto alto era, na verdade, um adereço exclusivamente masculino.

Com efeito, figuras públicas como o actor Billy Porter, que lançou uma colecção cápsula com a Jimmy Choo em 2021, ou o músico Prince, conhecido pela sua vasta colecção de botas de salto, são ainda excepções que confirmam a regra. A sua adopção do salto alto é frequentemente interpretada como uma declaração contra convenções de género estabelecidas, numa sociedade onde a altura é valorizada nos homens, levando alguns a recorrer a truques ou mesmo a cirurgias complexas para parecerem mais altos.

Dos cavaleiros persas à corte francesa

A associação do salto alto ao universo feminino é relativamente recente. Elizabeth Semmelhack, curadora principal do Museu Bata do Calçado em Toronto, que detém uma das maiores colecções mundiais, explica que a origem do salto remonta, pelo menos, ao século X na Ásia Ocidental. “Foram concebidos para ajudar os cavaleiros a manter os pés nos estribos”, esclarece Semmelhack em declarações por telefone, sublinhando a sua função prática inicial.

Esta ligação funcional à equitação, vista como uma actividade viril, facilitou a sua adopção na Europa a partir do século XVI, através do intercâmbio comercial e cultural com a Pérsia. O salto tornou-se rapidamente um símbolo de estatuto entre a aristocracia masculina europeia, pois a sua natureza pouco prática para caminhar ou trabalhar denotava uma vida ociosa e privilegiada. Documentos do Museu J. Paul Getty confirmam esta tendência.

O expoente máximo desta moda pode ser observado no retrato de Estado de Luís XIV, pintado por Hyacinthe Rigaud em 1701. O monarca francês exibe vistosos sapatos brancos com saltos vermelhos, conhecidos como talons rouges, um privilégio que o rei concedia apenas a um círculo restrito de nobres, reforçando o seu poder e distinção através do calçado. Nesta época, era comum os homens exibirem as pernas e os sapatos, enquanto as mulheres usavam saias que os ocultavam.

A “Grande Renúncia” e a feminização do salto

A mudança radical ocorreu durante o Iluminismo, nos séculos XVII e XVIII. Este período de efervescência intelectual, como aponta Semmelhack, redefiniu não só a política e a ciência, mas também as concepções sobre género. “Os homens passaram a ser definidos como

racionais e activos, enquanto as mulheres eram vistas como emocionais e decorativas”, explica a curadora. Esta clivagem reflectiu-se profundamente no vestuário.

Assistiu-se ao que o psicólogo John Carl Flügel mais tarde designou como a “Grande Renúncia Masculina”. Os homens abandonaram progressivamente as cores vibrantes, os tecidos luxuosos e os adornos, incluindo os saltos altos, em favor de trajes mais sóbrios, escuros e práticos. O salto alto coberto de tecido, associado à ostentação da corte, desapareceu do guarda-roupa masculino, persistindo apenas o salto de couro empilhado, mais funcional, em botas e alguns sapatos formais.

Enquanto o calçado masculino se tornava mais utilitário, o salto alto feminino ganhava novas conotações. Passou a ser usado para criar a ilusão de pés mais pequenos e delicados, considerados um padrão de beleza. “O salto levanta o arco do pé, fazendo-o parecer menor”, detalha Semmelhack. Ao longo dos séculos seguintes, a altura e o formato dos saltos femininos foram variando, carregados de complexas implicações sociais, políticas e de desejabilidade.

Um tabu persistente na actualidade

Hoje, apesar da valorização social da altura masculina, o uso de saltos altos por homens permanece um forte tabu, frequentemente associado a uma quebra das normas de género ou à cultura queer e drag, onde são usados para intensificar a performance e o dramatismo. A ironia reside no facto de muitos estilos de salto vistos hoje como “femininos” terem raízes directas nos modelos usados por homens durante séculos.

A persistência deste tabu levanta questões sobre a rigidez das normas de género contemporâneas. “Falamos disto como uma grande mudança de género. Mas será mesmo, ou é apenas uma recuperação de modas masculinas históricas do passado?”, questiona Semmelhack, deixando a reflexão em aberto. A história do salto alto é, assim, um espelho das complexas e mutáveis relações entre moda, estatuto e identidade de género ao longo do tempo.

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