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AR: Velhos, jotas e quotas…

Num país onde a política se assemelha a um museu de cera, os partidos teimam em desenterrar relíquias do passado para encabeçar as listas à Assembleia da República. São políticos estafados, outrora estrelas fugazes no firmamento das ideias, hoje meros cometas sem luz, insistindo em orbitar um sistema solar que já ninguém contempla com espanto. Parecem peças de um jogo de xadrez que perdeu os jogadores, mas que os estrategas partidários movem, na vã esperança de que o milagre da nostalgia torne a partida digna de aplauso.

Ao seu lado marcham os novos recrutas, saídos das fornalhas das juventudes partidárias, onde a lealdade aos caciques vale mais que qualquer rasgo de mérito ou visão. São os boys e girls das “jotas”, autênticos autómatos em fila, recitando promessas ocas como quem entoa cânticos aprendidos na infância, sem jamais ousar um olhar crítico ao espelho do status quo. E, para coroar este desfile de vaidades, surgem os antigos laureados do Miss Portugal, que, finda a efémera glória das passerelles, trocam os holofotes da beleza pelos da política, trazendo o mesmo lustre superficial. Dir-se-ia que a Assembleia se converteu num certame de poses, onde o que conta é o sorriso e não o que se pensa por detrás dele.

Nos últimos vinte e cinco anos, os partidos, obcecados pelo poder, esqueceram o porvir e a sociedade que dizem servir. Fecharam-se em castelos de cartas, recrutando apenas entre os fiéis, enquanto a porta para o mundo real apodrecia nas dobradiças. O resultado é este elenco de sombras, um cortejo de figuras que parecem saídas de um baile de máscaras onde ninguém se lembrou de mudar o traje.

Mas não se julgue que a renovação não foi tentada. Quantas vezes os partidos juraram abrir os portões à sociedade civil, trazer sangue novo para o palco? E quantas vezes o espectáculo terminou com os mesmos actores, as mesmas falas, o mesmo desfecho triste? É como se a política portuguesa vivesse presa num círculo eterno, um carrossel que gira sem destino, condenando-nos a repetir os erros até à exaustão. Mesmo quando, por graça do acaso, emerge um movimento novo, cheio de promessas e ar fresco, o sistema engole-o com a voracidade de um buraco negro, transformando o diferente em igual, o ousado em submisso.

E os cidadãos? Esses, fartos de serem tomados por ingénuos, viram as costas ao teatro, deixando o palco livre para os medíocres. É um ciclo vicioso, onde a falta de alternativas gera apatia, e a apatia eterniza a falta de alternativas. Um enigma sem saída, como quem procura o fim de uma fita de Möbius. O bom senso, o respeito social, os princípios da Esquerda Europeia ou do humanismo? Palavras bonitas, mas vazias, que ecoam num salão deserto enquanto os fantoches dançam ao som dos mesmos maestros.

E contudo, talvez haja uma luz, um twist que nos salve da melancolia. Imaginem: a lista única da Associação dos Diabéticos! Sim, esses mestres da gestão quotidiana, que equilibram açúcar e insulina com a precisão de um relojoeiro suíço. Quem melhor para governar um país do que aqueles que dominam a arte de lidar com crises silenciosas? Uma Assembleia onde os debates seriam temperados pela necessidade de manter o nível de açúcar em ordem, onde as leis sairiam com a exactidão de uma dose bem medida. E, melhor ainda, são umas doçuras de pessoas, sempre prontas a oferecer um sorriso e um conselho sereno. Talvez a política precise mesmo desta candura para apaziguar tanta amargura acumulada.

Ou, quem sabe, os cidadãos ergam-se e criem um partido de gente comum, sem linhagem política, guiado pelo bom senso e por um humanismo vivido, não apenas declamado. Um lugar onde os candidatos valham pelo que fazem, não pelo que parecem. Mas, ai de nós, a natureza humana não perdoa: o poder corrompe, e o ciclo, qual fénix teimosa, renasce das cinzas. Ainda assim, a democracia cá vai andando, tropeçando mas viva. E talvez, por um golpe de sorte, surja um dia alguém que mude o guião. Até lá, riamos, que o riso é o melhor antídoto ao desalento. Porque, no fundo, a verdadeira graça da política portuguesa está nisto: faz-nos rir mesmo quando o pano ameaça cair. E se não mudamos o mundo, mudemos ao menos os olhos com que o vemos.

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Joao Vasco Almeida
Joao Vasco Almeida
Jornalista 2554, autor de obras de ficção e humor, radialista, compositor, ‘blogger’,' vlogger' e produtor. Agricultor devido às sobreirinhas.

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