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NICARÁGUA: Autoridades confiscam mosteiro das irmãs trapistas e expulsam do país mais um padre e duas religiosas

Nos últimos dias, o regime de Daniel Ortega confiscou um mosteiro de irmãs Trapistas, entregando-o a uma estrutura governamental, e expulsou do país um sacerdote e duas religiosas que dedicavam as suas vidas ao serviço dos mais idosos…

A Semana Santa na Nicarágua não ficou apenas marcada pela proibição de procissões nas ruas, no espaço público. Calcula-se que cerca de duas dezenas de pessoas tenham sido detidas por eventos relacionados com a expressão pública da fé. As iniciativas repressivas das autoridades começaram logo no dia 3 de Abril.

NICARÁGUA: Autoridades confiscam mosteiro das irmãs trapistas e expulsam do país mais um padre e duas religiosas
DR

Nessa segunda-feira, início da Semana Santa, o regime expulsou do país um padre do Panamá, o claretiano Dinanciano Alarcón, por este ter denunciado, numa homilia, a situação em que se encontra o Bispo de Matagalpa, D. Rolando Álvarez, condenado a 26 anos e quatro meses de prisão, e também por ter realizado uma procissão não autorizada.

O próprio sacerdote, em declarações à rádio Hogar, da Arquidiocese do Panamá, explicou como foi colocado na fronteira. “Eles colocaram-me numa viatura com dois polícias e levaram-me até à fronteira [com as Honduras] e disseram-me: ‘você está fora do país e não pode voltar mais’.” O superior dos cleretianos para a América Central, padre Islamel Montero, afirmou, entretanto, que o sacerdote “estava a ser seguido”, desde há vários dias pelas autoridades.

Mosteiro confiscado, irmãs expulsas

Já na semana passada, na terça-feira, dia 11, as autoridades confiscaram o mosteiro das irmãs trapistas, situado em San Pedro de Lóvago, em Chontales, entregando o edifício ao INTA, o Instituto Nicaraguense de Tecnologia Agrícola. As freiras já tinham abandonado o mosteiro a 24 de Fevereiro, estando agora no Panamá. As religiosas, que pertencem à Ordem das Irmãs Cistercienses de Estrita Observância, chegaram a informar na sua página oficial no Facebook que deixavam “voluntariamente o país” ao fim de 22 anos, mas que permanecerão “sempre unidas na oração e na amizade” ao povo da Nicarágua.

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Logo no dia seguinte, 12 de Abril, após o confisco do mosteiro, duas outras religiosas que se dedicavam ao cuidado dos mais idosos foram também expulsas do país. Ambas as irmãs, Isabel e Cecília Blanco Cubillo, são costarriquenhas, pertencem à Congregação Dominicana da Anunciação, e estavam a trabalhar num abrigo para idosos, o lar López Carazo, que tem actualmente cerca de 40 utentes. As duas religiosas estão agora na Costa Rica.

Direitos humanos sob vigilância

Estes acontecimentos ocorrem na mesma altura em que a ONU decidiu aprovar, a 3 de Abril, e por mais dois anos, a extensão do mandato dos peritos internacionais que estão a investigar a situação de direitos humanos na Nicarágua.
No mês passado, recorde-se, este grupo de peritos apresentou um relatório em que se denunciam “violações de direitos humanos que configuram crimes contra a humanidade”, e que estão a ser cometidos “contra civis na Nicarágua”.

Segundo o relatório, as alegações de abusos, que incluem “execuções extrajudiciais, prisões arbitrárias, tortura, privação arbitrária da nacionalidade e do direito de permanecer em seu próprio país”, não são casos isolados, mas sim “o produto deliberado do desmantelamento de instituições democráticas e da destruição do espaço cívico-democrático”.

Um dos relatores independentes, Jan Simon, disse que essas violações estão a ser cometidas “de forma sistemática e configuram crimes contra a humanidade de assassinato, encarceramento, tortura, violência sexual, deportação e perseguição política”.

Igreja sem embaixada

Um dos alvos principais da repressão das autoridades de Manágua é a Igreja Católica. No mês passado, a Santa Sé deixou, inclusivamente, de ter representação diplomática na Nicarágua com a saída do encarregado de negócios. O encerramento representação do Vaticano fora pedido pelo governo nicaraguense a 10 de Março na sequência de declarações do Papa Francisco a um ‘site’ argentino. Nessa entrevista, o Santo Padre fala do “desequilíbrio da pessoa que lidera” a Nicarágua, referindo-se a Daniel Ortega, e descreve o país como sendo uma “ditadura grosseira”, comparando-a à tirania soviética de 1917 e à de Hitler, em 1935.

Com a saída do último representando do Vaticano da Nicarágua, o edifício da Nunciatura Apostólica e os seus bens e arquivos foram confiados à representação italiana, de acordo com a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. O fecho da embaixada é o culminar do afastamento nas relações entre os dois Estados, depois de há um ano, a 12 de Março de 2022, o núncio apostólico, ou seja, o embaixador do Vaticano, D. Waldemar Stanislaw Sommertag, ter sido também expulso do país.

Medidas repressivas

As medidas repressivas contra a Igreja parecem de facto imparáveis. Além da proibição das procissões nas ruas durante a Semana Santa, da prisão do Bispo de Matagalpa, do confisco do mosteiro das Irmãs Trapistas, da expulsão de padres e de religiosas – as autoridades já tinham provocado também a saída do país, em Julho do ano passado, das Missionárias da Caridade, a congregação fundada pela Santa Madre Teresa de Calcutá –, as autoridades da Nicarágua decidiram também e já recentemente, o encerramento de duas universidades católicas, a de São João Paulo II e a Autónoma Cristã da Nicarágua e também da Fundação Mariana de combate ao Cancro e ainda de dois escritórios da Caritas. Antes disso, o regime de Daniel Ortega já tinha mandado encerrar o canal de televisão da Conferência Episcopal e de outras seis estações de rádio católicas.

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Paulo Aido
Paulo Aido
Jornalista da imprensa escrita, Web e rádio.

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