“Até que ponto terá esta proibição geral destruído em mim as curiosidades naturais, o desejo de saber de fonte direta, e de acusar sem rebuço, forçando-me a uma atitude hipócrita de indiferença?”, questiona-se José Rodrigues Miguéis em É Proibido Apontar (1964), autor relativamente esquecido mas pródigo de currículo e homenagens, um “idealista no mundo real”, a propósito do costume tão arreigado de proibir que se aponte o dedo ao que está mal ou a quem o causa.
«Apontar é pecado, é tabu!», diziam-me, para “reprimirem em mim uma espontânea e justiceira tendência acusadora, o desejo de inquirir sem reservas”. E a consequência foi que “os meus dedos ficaram para sempre anquilosados, perderam a agilidade necessária para trespassar indiscretamente as pessoas e os factos que a minha consciência interroga ou condena”. E. todavia, “apontar é um gesto revolucionário. Foi também apontando que Judas Iscariote mostrou o Cristo, dando início a uma revolução nas ideias morais e religiosas”.
De modo que, diz o autor, “com os dedinhos contraídos e as orelhas ainda rubras da memória de algum remoto puxão, os meninos feitos homens, mesmo sendo altas coisas neste mundo, nunca mais se atrevem a dizer «Foi o Nené!», quando, nas assembleias, consistórios, conselhos, tribunais, comandos ou parlamentos, alguém se ergue indignado a indagar quem foi que comeu a compota que estava guardada na despensa do cofre ou do orçamento”.
“Como é sabido, só nos grandes apertos, ou sonhando em voz alta, os culpados dizem suas culpas; ou quando lhes convém, por exemplo para salvar a alma pela absolvição. De resto, o silêncio, se nem sempre é de oiro, é pelo menos de papel-moeda ou títulos cotados. E quem o guarda não corre o perigo de ficar sem dedo – ou sem anéis, que importam mais. E, no entanto, o homem que aponta assume a responsabilidade do seu gesto, a mão que se ergue a inquirir, a acusar, a denunciar”.
José Rodrigues Miguéis (Lisboa, 1901 – Nova Iorque, 1980) foi escritor, dramaturgo, professor e desenhador, licenciado em Direito e Pedagogia, Prémio Casa da Imprensa (1932), opositor ao regime e exilado cedo nos EUA, onde adquiriu a nacionalidade e se tornou membro da Hispanic Society of America (1961). Já no regime democrático português, integrou a Academia das Ciências de Lisboa (1976) e foi agraciado com a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico (1979).
“E nisto a menina aponta para fora, para a estátua do Libertador, para o sol distante, as pombas da praça, talvez para uma janela onde qualquer coisa lhe atraiu a atenção: e a mão lívida, burocrática, pergaminácea do cidadão-papá estende-se num jeito de polvo a abaixar severamente o dedinho indiscreto. «É proibido apontar!». O funcionário olha em redor, através das lunetas desconfiadas de azul, não tenha alguém reparado no gesto da filha (ou no dele?)”.