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A cena musical em Luanda até à independência, Parte I

Para quem era jovem nos anos 60 e 70 em Luanda.

Apesar de ter iniciado a sua publicação há poucos meses, e para já apenas de forma digital, a verdade é que o jornal ORegiões tem granjeado leitores das mais variadas proveniências etárias e mesmo geográficas, designadamente Macau, Goa e Angola, para além de Portugal.

Depois de ter publicado a crónica sobre o Beto Kalulu, recebi diversos pedidos para aprofundar a cena musical dos mais jovens nos anos 60 e 70 em Luanda.

Esta é a primeira de uma série de textos sobre essa época, efervescente em vários aspetos…

Música nos bairros populares periféricos

De 1961 aos anos 70 verificou-se uma viragem na política colonial portuguesa, especialmente no que se refere a Angola.

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Ao mesmo tempo que se mobilizava o exército para a guerra, lançaram-se novos planos de desenvolvimento económico e social que favoreceram a integração das populações autóctones no sistema capitalista colonial e atenuou a influência da propaganda política nacionalista, levada a efeito pelos movimentos de libertação. Por esse facto, Angola conheceu no anos 60 e 70 um ciclo de expansão económica e prosperidade, assim surgindo um estilo de vida mais cosmopolita e aberto ao mundo, a que não foi alheia a criação em 1962 dos Estudos Gerais Universitários de Angola, futura Universidade de Luanda.

A cena musical em Luanda até à independência, Parte I
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Para Marissa Moorman, nas notas que acompanham a compilação discográfica Angola Soundtrack da editora alemã Analog Africa, de Frankfurt, onde se apresentam raridades dos anos 60 e 70 numa gravação que recebeu em 2010 um prémio da crítica musical alemã,

Pode considerar-se este período como a época de ouro da música angolana, uma vez que é precisamente nessa altura que se estabelece nos musseques um sentimento de pertença a uma comunidade, por parte das pessoas que vieram em massa de todas as partes do país para a capital. Esta linguagem cultural urbana alimentou-se dos diferentes contextos culturais que aí entraram em contacto, bem como da música que chegava a Luanda a partir da Europa, dos Estados Unidos ou das Caraíbas. A guitarra elétrica, símbolo da explosão musical pop dos anos 60, foi ao encontro dos instrumentos e ritmos tradicionais das diferentes regiões, deixando nascer um novo som: a Rebita, a Kazukuta ou o Semba, que são a banda sonora da Angola moderna.

Nos bairros limítrofes tocavam grupos como os Kiesos, os Jovens do Prenda ou os mediáticos N´Gola Ritmos de Liceu Vieira Dias, berço de várias vozes que se levantaram contra a opressão colonial. Mas estas histórias ficarão para “outras calendas”

Música na chamada cidade de cimento.

Também na cidade colonial – centro administrativo, dos negócios e urbanizada – novos e mais jovens sons vieram agitar a pacatez tradicional, principalmente a partir de meados da década de 60, com o nascimento de diversos conjuntos dos chamados Ritmos Modernos!

A cena musical em Luanda até à independência, Parte I
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Durante os anos 50 e princípios dos anos 60 eram as Orquestras que animavam as botes e outros locais de animação, existindo muitas referências à Orquestra de Salão do maestro Silverio de Campos e à Orquestra de Variedades do maestro José Neves. Ficou célebre a passagem do ano de 1959 na Messe de Oficiais, onde duas orquestras e os vocalistas Álvaro Fonseca e Helder Ribeiro animaram a noite. Corria o ano de 1951 quando Shegundo Galarza inaugurou o Cinema-Boîte Restauração, onde permaneceu até Abril de 1952.

Em princípios dos anos 60 era na bote Tamar, com a sua pista de dança com chão de vidro, que fazendeiros e outros endinheirados enchiam de espuma de champanhe os dois andares por onde o som da orquestra fazia esquecer as agruras do mato.

É curioso o caso do conjunto Melodia Ribatejana que, desde meados dos anos 60, acompanhavam quase todos os artistas de música ligeira vindos da Metrópole: Tony de Matos, Luís Piçarra, Tonicha, Simone de Oliveira, Fernanda Baptista. Noutras alturas faziam as primeiras partes de espectáculos.

Todavia, já em 1961 há notícia do Conjunto de Boite de Ricardo Credi tocar a desconcertaste música da destrambelhada mocidade deste século (Revista de Angola n.º 24 de Janeiro de 1961). Em finais de 1961 este pianista, depois de ter actuado algum tempo em Luanda, iria em Lisboa gravar para a etiqueta Alvorada o Concerto a Luanda, onde em três andamentos contará como a calma e pacífica Luanda passou à tristeza e revolta das suas gentes perante os ataques terroristas, acabando a peça com o ritmo vibrante da sua luta heróica.(Notícia: Semanário Ilustrado de 16 de Dezembro de 1961). Depois do seu retorno para Lisboa, os restantes membros do conjunto formaram o agrupamento Os Portugueses.

Na área do Jazz, escreveu Jerónimo Belo no Jornal de Angola Online de 3 de Março de 2010, que embora apenas praticassem esse género musical a nível bastante pessoal, merecem realce

um grande apreciador de Errol Garner, o pianista Emanuel Marto, que criou o Di Marto Quarteto, e, igualmente, os casos de José Andrade e Manuel Gomes, dos Electrónicos, e Luís Alfredo Saraiva, dos Rocks. Conjuntos musicais estrangeiros, como I Don Giovanni (em 1964 actuava na Boite Universo), Helder Martins & seu Conjunto, que passavam por Luanda e aqui faziam grandes temporadas nas boites dos Hotéis Continental e Universo, e, de um modo geral, nas casas nocturnas e clubes (Embaixador, Retiro da Saudade, L’Etoile), também não praticavam Jazz. Há, todavia, uma honrosa excepção, que importa não esquecer: a presença em Luanda, nos anos 60, do baterista português Fernando Rueda (já falecido), com o seu grupo: Rueda + 4. Rueda foi um grande baterista de Jazz!

A chegada dos Ritmos Modernos

Mas é com a primeira actuação dos Rock´s na passagem do ano de 1961 na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Luanda e o sucesso conseguido em Lisboa logo em 1962, que se abrem portas para a explosão de conjuntos de Música Moderna que surgiram ou visitaram Angola nos anos seguintes. Seus contemporâneos, os Cinco de Luanda não mostravam a irreverência em palco dos Rock´s.

Foram vários os grupos e intérpretes da Metrópole ou do estrangeiro que actuaram em Angola durante as décadas de 60 e 70.

Logo em 1962 e 1963 o Rocker Victor Gomes, mais tarde famoso com os seus Gatos Negros, trabalhou em Luanda no Cabaret Marialvas onde imitava Elvis Presley, tendo também aparecido no programa infantil Cazumbi, no cinema Miramar, a convite do empresário Luis Montez. Victor Gomes, vindo de Moçambique, actuou em diversas cidades de Angola acompanhado pelo conjuntos os Dardos, do Lobito. Lembra Ondina Teixeira, intérprete de realce no panorama angolano e que por diversas vezes integrou o espectáculo com o Rocker, que

eu cantava com a mulher dele, a Pretórius e com o Miguelito do Pandeiro, era um brasileiro que tocava uma pandeireta e sambava ao mesmo tempo, era uma colosso, nessa altura morreu o filho do Victor Gomes, foi terrível!

Mais tarde em Luanda tocou no Flamingo acompanhado pelo conjunto Night and Day.

Embora os Conchas também tivessem passado por Angola, a verdade é que merece realce a contribuição de Victor Gomes para a divulgação do chamado folclore do Rock, não apenas em Moçambique e mais tarde na Metrópole, mas também em Angola: o seu blusão e calças de cabedal com efeitos de metal, os saltos para o meio do público e os trejeitos diabólicos em palco traziam agitação que se transmitia à assistência como nunca antes acontecera. Possivelmente terão sido as suas actuações que influenciaram Joe Twist Mendes (Joe do Twist) que logo em 1963, vindo da Huíla, actuou no Chá das Seis e Meia, intérprete de 24 anos que começara a sua carreira em 1959 em Johanesburg, bem como em 1966 Tony do Twist, com popa e pintarola, vocalista dos Guitar Boys do Alto Catumbela.

Em 1962 os Thilo´s Combo actuaram na Boite Rendez Vous, tendo tido mesmo direito a capa na revista Notícia de 4 de Agosto.

Deve também referir-se que em Dezembro de 1963 o pianista e cantor do Funchal Helder Martins actuou na Boite do Continental em Luanda, depois de passar pela África do Sul. Autor de temas como “African Blues” e “Yé e não é”, bem como da banda sonora do filme Pão Amor e Totobola de 1963, onde Zeca do Rock interpreta “Twist para Dois”, o musico teve alguma relevância na sua época em Portugal.
Acrescente-se que o Conjunto Académico João Paulo tocou em Angola e Moçambique em 1965, tendo em 1966 e 1969 voltado a actuar nas colónias, uma vez que alguns dos seus membros foram mobilizados para os Serviços de Bem Estar e Moral das Tropas.

Também os Álamos fazem em Julho de 1967 digressão em Angola com o Orfeon Académico de Coimbra, bem como o Quinteto Académico em Agosto 1967 e os Pops em Dezembro do mesmo ano.

Em data não identificada os Tártaros actuaram durante três meses numa boîte em Luanda, ficando célebre o tema “Tartária” (considerado o twist mais acelerado da altura) a ser dançado em farra nocturna numa praia da ilha. Também o Duo Sérgio & Madi se exibiram em Angola.

O Conjunto 1111, com José Cid e Mike Sargent, foram apresentados como a grande atracão da festa comemorativa do décimo aniversário do programa de rádio Luanda 73, no cinema Avis em 27 de Setembro de 1973.

Entre os artistas internacionais que tenham actuado em Angola merece especial realce o espectáculo de Percy Sledge no Avis, por iniciativa da Rádio Comercial, aproveitando uma digressão pela África do Sul em Setembro de 1972, onde surgiu alguma contestação por não cumprir o boicote ao regime racista. Ficou alojado no Hotel Universo. A vinda do cantor a Angola está envolta em algum mistério, não apenas por não existirem certezas onde terá actuado (certo é que assinou autógrafos na discoteca Kissange do Henrique Portugal e deu espectáculo no polivalente do Benfica de Luanda), mas também por se colocar a hipótese do álbum Percy Sledge in Angola com o registo ATC9257 Stereo, editado pela Discos Teal Roda, Lda, poder ser uma falsificação.

Esteve pela primeira vez em Luanda no início da década de 1970. Deixou-nos a moda dos “pandos à Percy” (tacão alto) e do cabelo desfrizado para homens, afinal a carapinha é a mesma e os direitos também. Voltou muitos anos depois, acho que pela mão da Casa-70. Foi-se embora de vez com 73 anos, mas ensinou-nos o que é que se deve fazer ‘When a man loves a woman’, um dos slows mais dançados de todos os tempos, bem agarradinhos, mas sem necessidade de trarrachar, afirmou a cantora angolana Bruna Tatiana quando da morte do cantor em 21015.

Também será de referir o espectáculo, nesse mesmo ano, de Roberto Carlos, mas que segunda a revista Notícia terá sido uma desilusão.

Os conjuntos em Luanda

Quando em princípios de 1967 Beto Silva faz o seu primeiro espectáculo com os Brotolândia, no Bairro Madame Berman, já Luanda vibrava com diversos conjuntos de Música Moderna, como os Rocks, Kriptons, Jovens, Incógnitos, Jazzers, Ídolos, Big Boys, Cunhas, Gansos, Diabólicos e Brucutus, entre muitos outros.

A cena musical em Luanda até à independência, Parte I
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As canções que interpretavam eram principalmente covers de vinis recebidos da Metrópole ou da África do Sul e que só mais tarde chegavam às lojas de Luanda, com os acordes ou posições a serem apreendidos nas guitarras Eko (Teisco, Framus, etc) depois de muitas repetições no gira-discos. Alguns dos temas mais ouvidos em Angola ou Moçambique vinham da África do Sul, como “That´s What I Want” dos Square Set, “For Your Precious Love” dos Flames, “I`ll Slip Away ” de Rodriguez ou “Pata Pata” de Miriam Makeba. Muitos desses discos eram trazidos por amigos ou familiares ou enviados pelos correspondentes, pessoas que viviam fora de Angola e com quem se trocavam cartas e outra correspondência. Em Luanda compravam-se discos na Livraria Lello ou na Lusolandia.

Também através da rádio se descobriam os novos sons, como na Hora dos Jovens de Aura Castelo (1961), Café da Noite e Tondo´ya Mu Kina O´Kizomba (Batucada em Nossa Casa) de Sebastião Coelho (1963) na rádio Eclésia, Luanda 62 (63, 64… até 74) de Zé Maria, Juventus 3.6 e Angola 2 de Henrique Portugal (1968), Escape Musical de Martins Martins (1968), Carlos Brandão Lucas e o seu Equipa ou no Fórmula J nos anos 70 (o slogan era Música Hoje – Som Presente), que era transmitido ao fim da tarde, por António Macedo, que apresenta agora o Programa da Manhã da Antena 1, entre muitos outros.

Merece referência especial a Revista EF, surgida em 1970. Tratava-se de uma publicação criada por jovens, que tratava a música de forma inovadora e até um pouco ousada para a situação política que então se vivia.

É bom lembrar que a TVA – Televisão de Angola só viria ser criada em Junho de 1973, com a autorização da constituição de uma sociedade anónima, que também estabeleceria a Radiotelevisão Portuguesa de Angola que mais tarde se tornaria em TPA – Televisão Popular de Angola.

Encontramos assim uma sociedade estratificada também na área musical, cabendo ao que poderemos designar conjuntos de Ritmos Modernos abrilhantar os fins de semana da chamada cidade branca, em colectividades de bairro como a Casa Branca ou o Ferrovia onde se juntava a pequena e média burguesias, ou em clubes mais seleccionados como a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Angola, o Clube dos Amadores de Pesca ou o Clube de Caçadores, para além de espectáculos pontuais nas festas de finalistas do Liceu Salvador Correia e de outros estabelecimentos de ensino. Não esquecendo o sempre concorrido Carnaval de Luanda (Maxinde, etc)!

Estaria na altura de desenvolver a intensa os conjuntos que animavam as tarde e noites de Luanda, muitos desses músicos ainda se encontrando em atividade em Portugal ou Angola, mas essas cenas também ficarão para outra crónica.

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Joaquim Correia
Joaquim Correia
“É com prazer que passo a colaborar no jornal Regiões, até porque percebo que o conceito de “regiões” tem aqui um sentido abrangente e não meramente nacional, incluÍndo o resto do mundo. Será nessa perspectiva que tentarei contar algumas histórias.” Estudou em Portugal e Angola, onde também prestou Serviço Militar. Viveu 11 anos em Macau, ponto de partida para conhecer o Oriente. Licenciatura em Direito, tendo praticado advocacia Pós-Graduação em Ciências Documentais, tendo lecionado na Universidade de Macau. É autor de diversos trabalhos ligados à investigação, particularmente no campo musical

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