Há uma espécie de milagre laico nas salas de aula portuguesas: alunos que, após doze anos a mastigar Os Lusíadas como se fossem pastilhas elásticas, saem do sistema a saber recitar a Mensagem de cor, mas incapazes de identificar o Tejo num mapa. O ensino de Português e História tornou-se um exercício de taxidermia intelectual, onde se dissecam autores até extrair deles o último vestígio de vida, para depois os enfiar em molduras de fórmulas pré-fabricadas. Alice Vieira, certa vez, confessou ter aprendido mais sobre um seu romance num manual escolar do que na própria escrita — e não era ironia. Era a síntese perfeita de um sistema que prefere embalsamar a literatura a deixá-la respirar.
Os professores, coitados, transformaram-se em carcereiros involuntários de um regime pedagógico que exige obediência cega à letra-morta. Um aluno que ouse sugerir que Camões poderia ter escrito sonetos sobre Tinder medieval é imediatamente repreendido por “anacronismo”. Outro, que questione se D. Sebastião não seria, afinal, o primeiro influencer da história (prometia glória, desaparecia misteriosamente e deixava seguidores à espera) é remetido à biblioteca para copiar verbetes do dicionário. A criatividade, dizem, é permitida — mas apenas nas margens do caderno, a lápis, e desde que não contamine a matéria.
Não admira, pois, que o Ministério da Educação tenha anunciado — em comunicado escrito em português do século XVI para garantir inacessibilidade — o novo programa ‘Escola 4.0: A Revolução dos Autómatos’. A premissa é simples: se os alunos insistem em pensar, substituímo-los por algoritmos. Segundo um estudo da Fundação para a Eliminação de Perguntas Incómodas (FEPI), 89 por cento dos adolescentes portugueses demonstram “excesso de curiosidade patológica”, um distúrbio que os leva a fazer perguntas como “Por que é importante?” ou “Isso serve para quê?”.
A solução? Aulas gamificadas, claro. Os conteúdos serão leccionados através de slides animados, narrados por vozes robóticas (a imitar Fernando Pessoa, mas sem o incómodo dos heterónimos). Os exames nacionais passarão a ser quizzes de escolha múltipla, onde a pergunta “Qual o significado da epopeia camoniana?” terá como opções: A) Enaltecer os Descobrimentos; B) Criticar a corte; C) Todas as anteriores; D) Nenhuma das anteriores, porque a epopeia é um ‘spoiler’ da crise de 1383-85.
E para os recalcitrantes que ainda teimam em ler além do manual, foi criada a Polícia da Interpretação Livre (PIL), equipada com apagadores de quadros e edições críticas censuradas. Um director de turma de Braga confessou, sob anonimato: “Detectámos um aluno a relacionar a Mensagem com O Caminho das Estrelas. Teve de fazer uma apresentação em PowerPoint sobre a métrica do Sextina para se redimir.”
Mas eis o segredo sujo que ninguém quer admitir: este circo de decorebas não é incompetência, mas previsto. Um sistema que premia a regurgitação de citações em vez da análise crítica não forma cidadãos — forma consumidores. Consumidores de ideias pré-mastigadas, de narrativas oficiais, de heróis de pacotilha. Camões não é estudado como um homem a navegar entre a genialidade e a desgraça, mas como um ‘emoji’ patriótico. Sophia não é lida como uma mulher a lutar com as palavras, mas como um selo postal místico.
A esperança? Reside nos hereges. Naquele aluno que, ao ser obrigado a decorar os feitos de Afonso Henriques, pergunta: “E se ele fosse uma mulher trans?” Na rapariga que, perante a análise do Memorial do Convento, propõe que Baltasar e Blimunda são os primeiros hipsters lusos (adoravam artesanato e desconfiavam da Igreja). No rapaz que decide esclarecer, antes de fazer interpretação comparada, afirma: “Camões e Pessoa eram uns viciados de primeira”. São estes hereges que, ao serem reprimidos, provam que a educação ainda pode ser perigosa.
O resto é paisagem. Ou, como diria um manual escolar: “O resto é uma metáfora para a efemeridade da existência, conforme exemplificado na estrofe 12 do Canto IX d’Os Lusíadas.”
Claro que isto é um exagero. Ou não. Afinal, quantos de nós, ao lermos este texto, não nos reconhecemos na caricatura? A verdadeira lição está no silêncio entre as linhas — mas calma, não a procurem. Não está no programa.