O governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, alertou esta quarta-feira que a imposição de tarifas pelo governo dos Estados Unidos representa uma verdadeira forma de imposto, que, em fase de retaliação, poderá “adensar os custos económicos” e afetar gravemente a economia global. Durante uma intervenção na cerimónia de entrega dos prémios do Concurso Geração €uro, Centeno destacou que estas tarifas não têm impacto exclusivo no consumo final, mas atingem também todos os estágios da produção, dado que a economia internacional está cada vez mais integrada e os produtos circulam por diversas fases antes de chegar ao consumidor final.
Segundo Centeno, as tarifas impostas pelos EUA são particularmente prejudiciais porque interferem diretamente no tecido produtivo, afetando de forma transversal a cadeia de valor das economias. “Essas medidas, que funcionam como barreiras económicas, acabam por ser um imposto que reduz a atividade económica, tal como qualquer taxa”, afirmou, acrescentando que o impacto imediato será a diminuição do comércio internacional e o redirecionamento das trocas comerciais entre países. A Europa, e especialmente Portugal, não ficará imune a estas consequências, que dependerão em grande parte da resposta coordenada dos países europeus face às medidas de retaliação.
O governador do Banco de Portugal sublinhou que a fase de retaliação das tarifas poderá intensificar os custos económicos já existentes, uma vez que, ao reduzir as trocas comerciais com os EUA, é possível que o comércio com outros mercados aumente. No entanto, Centeno indicou que este ajuste no comércio global não garante um efeito direto sobre os preços, uma vez que a competição através de preços poderá levar, em última análise, a uma redução dos custos em alguns setores. “Embora a tarifa seja um imposto que possa fazer os preços subirem, é possível que as alternativas comerciais ofereçam um ambiente de competição que resulte em preços mais baixos”, explicou.
A polémica sobre as tarifas norte-americanas intensificou-se nos últimos meses, com a administração de Donald Trump a anunciar aumentos significativos sobre as importações de aço, alumínio e automóveis, afetando diretamente países como a União Europeia e a China. O governo norte-americano prepara-se ainda para anunciar novas taxas sobre a maioria das importações, no denominado “Dia da Libertação”, com uma possível taxa de até 20% sobre as mercadorias estrangeiras, que podem entrar em vigor de forma imediata, como já foi indicado pela Casa Branca.
As novas tarifas visam equiparar os direitos aduaneiros aplicados aos produtos norte-americanos exportados, o que poderá resultar em mais tensões comerciais e uma possível desestabilização das relações económicas globais. A situação coloca o mundo numa encruzilhada, à medida que as nações buscam estratégias para mitigar os danos de uma possível guerra comercial em expansão.