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A propósito do Dia Mundial do Teatro: a tradição em Goa e suas similitudes com Macau e Portugal

Aproveitando a celebração do Dia Mundial do Teatro, comemorado em 27 de Março, desde 1961, por iniciativa do Instituto Internacional do Teatro, resolvemos proceder a um pequeno levantamento sobre teatro tradicional em Goa, Tiatr, tentando encontrar alguma similitude com o Teatro Macaense em Patuá e o Teatro de Revista em Portugal.

Tiatr é o termo em konkani, mas também ainda agora pode aparecer nos anúncios como theatr (do inglês theatre), teatr ou mesmo teatro: trata-se de uma “espécie de teatro de revista portuguesa” muito popular em Goa, sobretudo entre a comunidade cristã (para a comunidade hindu existe arte semelhante designada por Natâka), com uma forte componente musical predominantemente em konkani, onde confluem influências ocidentais, designadamente portuguesas e italianas, e também indianas (Zagor)… e, claro, com muito sabor a Brecht (ver “A Literatura Indo-Portuguesa“, de Vimala Devi e Manuel de Seabra)!

Também se encontra muita similitude com o Teatro Macaense em Patuá, sendo actualmente o Grupo de Teatro Dóci Papiáçam di Macau o seu mais fiel representante. Esta arte encarna as características únicas dum dialecto conhecido por patuá, que tem o português como base, misturando-o com konkani, malaio, cantonense, inglês e espanhol, tendo sido criado pelos imigrantes portugueses em Macau ao longo dos últimos quatrocentos anos. Aqui viviam os descendentes dos navegadores portugueses que se casavam sobretudo com mulheres da Índia e Malaca e que, juntamente com o influxo de outros portugueses vindos das colónias, deram origem a um grupo de pessoas de sangue misto que gradualmente evoluiu e formou a comunidade macaense. Caracteriza-se pela profusão de comédias que ridicularizam a sociedade onde peça se insere. O Teatro em Patuá funciona como elo de ligação emocional entre os macaenses espalhados pelo mundo e Macau, tendo sido considerado, conjuntamente com a gastronomia macaense, património imaterial da humanidade em 2012.

Pode assim dizer-se que se trata de um “teatro de mistura”, como a língua macaense, o mesmo acontecendo com o konkani e o Tiatr. Como curiosidade, as 10 palavras em Konkani mais “portuguesas”, segundo Nalini Elvino de Souza (nunca é de mais realçar a sua contribuição para a divulgação da língua portuguesa em Goa), têm claras proximidades com os termos em patuá (seguem-se os termos em português e em konkani): mesa (mez) janela (janel) calças (calsao) vestido (vistid) igreja (igorz) praça (prasar) colher (colher) cadeira (kodel) pagamento (pagar) missa (miss)… em pátuá jinela, etc.

A propósito do Dia Mundial do Teatro: a tradição em Goa e suas similitudes com Macau e Portugal
DR

Desde o séc. XVI que tragédias, comédias e tragicomédias religiosas foram levadas a cena nas igrejas de Goa, conforme descrito pela Companhia dos Jesuítas na correspondência com os superiores em Roma. Em 1553 Luís de Camões chega a Goa e em 1555 apresenta o auto Filodemos ao Governador Francisco Barreto, um ano antes de ser impresso o primeiro livro no então denominado Estado da Índia Portugueza (Conclusionnes Philosophicas).

Existem diversas referências à representação de peças de teatro em língua portuguesa, mas também em francês e castelhano, desde o séc. XVII: entre outros podemos referir Francisco do Rego e o seu Tratado Apologético Contra Várias Calúnias Contra a sua Nação Bramane e Mateus Lacerda (séc. XVII) que escreveu em konkani, português e castelhano mas cujos manuscritos se perderam.

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Antecedentes ligados a autores cristãos, para além de Camões e Gil Vicente, merecem menção as peças Os Dois Irmãos Doidos e As Duas Meninas Vizinhas de Inácio Custódio Coelho, levada à cena em 1886 no Teatro Harmonia em Margão (criado em 1853 e que em 1948 constituiria, com o Clube de Margão, o Clube Harmonia de Margão); Luis Napoleão de Ataide (1909) publicou uma série de pequenas peças de tipo humorístico-romãntico: A Mulher do Artista, O Filho do Mestre Jorge, A Viúva do Comandante e Nobreza de Alma; António José dos Mártires Sousa a comédia Viva O Tio Regedor. Na obra de Joaquim Filipe Neri Soares Rebelo (1873-1922), Obras Completas, publicado em Moçambique pelo seu filho em 1973, encontramos O Rei-Milhão, comédia representada em Margao em 1900), o monólogo O Peixote, Efeitos da Pinga, O Senhor Serapião, Tempestade em Copo de Água e Os Dois Namorados.

Sar Dessai, nascido em 1910, merece ser mencionado pelas suas diversas peças de teatro em língua portuguesa e por ter promovido esta arte dramática na Emissora de Goa. Vimala Devi considera-o o pai do teatro radiofónico em Goa com peças muito curtas como Os Irmãos Ideais, Fino e Meio, Parvo e Meio, A Resolução do Tumor da Barriga, entre outras.

O Tiatr teve origem fora do território, entre as comunidades de emigrantes goeses em Bombaim, em finais do séc. XIX. Entre os diversos autores devemos começar por referir Lucazinho Ribeiro por ter sido muito provavelmente pioneiro com a peça Italian Bhurgo em 1892 e João Agostinho Fernandes (1871-1947), considerado o pai do Tiatr, pela quantidade e qualidade das obras de que é autor. A sua esposa Regina, natural de Macau, foi a primeira mulher a subir ao palco, em 1904, numa altura em que ainda cabia aos homens interpretar os papéis femininos .

Em finais do séc. XIX diversas as companhias de ópera italianas actuaram em cidades da Índia como Bombay, Calcutta, Delhi e Madras, por vezes recrutando artistas locais para trabalhos de apoio. Lucazinho Ribeiro juntou-se a uma companhia que apresentava a ópera Italian Boy, e quando a companhia deixou o país Lucazinho comprou o material de cenário e figurinos, tendo montado trama semelhante em konkani a que chamou Italian Bhurgo, designando a companhia como Goa Portuguese Dramatic Company.

Curiosamente, nesta mesma altura foram levadas a cena diversas produções em língua portuguesa em Bombaim, como foi o caso de Doutor à Força de Pau, tradução de Le Médecin Malgré Lui de Moliére da responsabilidade de Diogense Noronha.

Para prender o público durante as mudanças de cenário entre os diversos actos, Lucazinho decidiu convidar músicos que interpretavam temas – muitas vezes nada tendo a ver com o conteúdo da peça – nesses intervalos.

Portanto, desde finais do séc. XIX que se organizavam espectáculos regulares nos cinemas e teatros de Goa, que envolviam temas religiosos, sociais ou mesmo políticos, muitas vezes denunciando injustiças de “forma camuflada”, para fugir à censura oficial ou latente na sociedade local. Algo semelhante ao que se passava com a revista portuguesa.

Repare-se no que escreve Souza Bastos sobre teatro de revista (segundo Duarte Ivo Cruz, o primeiro texto-espetáculo do género sobe à cena no Teatro do Ginásio em 11 de Janeiro de 1851, sob o título programático de “Lisboa em 1850”):

É a classificação que se dá a certo género de peças em que o autor critica costumes dum país ou duma localidade, ou então faz passar à vista do espetador todos os principais acontecimentos do ano findo: revolução, grandes inventos, modas, acontecimentos artísticos ou literários, espetáculos, crimes, desgraças, etc.” assim mesmo: e queixa-se de que “houve épocas em que nas revistas (…) eram festejadíssimas as caricaturas de personagens importantes da política.  Tudo isto hoje está proibido. Pois sinceramente, era isso preferível à pornografia de que quase todas as revistas hoje estão recheadas”! (in “Diccionário do Theatro Português – obra ilustrada com mais de 500 photogravuras” – 1908).

Note-se que esta evidente, pensamos nós, ligação do Tiatr (e do Teatro Maquista) à revista portuguesa não estará relacionada com a representação desta arte na Índia ou em Macau. De facto, não existe referência a qualquer companhia de teatro portuguesa que tenha então actuado na Índia ou em Macau.

José Carlos Alvarez, no interessante e aprofundado levantamento “Rumo a África: Contribuição para o estudo da presença das companhias de teatro e dos actores portugueses em África (1900-1974)”, publicado no n.º 19 da Revista Camões, escreve:

“Em 1936, nas páginas do semanário de cinema, teatro e actualidades Espectáculo, escrevia o ilus­tre actor Carlos Leal (1877-1964), numa prosa rebuscadíssima, mas sempre inteligente, e num português exemplar, como era seu hábito, um lúcido e oportuno artigo intitulado “Rumo a África’; a propósito da inexistência de digressões (ou tour­nées, utilizando a linguagem da época) teatrais de companhias e actores portugueses às suas colónias africanas “morreram todas as tentativas de organiza­ção de tournées às Colónias? Ninguém mais pensa nisso, nem mesmo como meio de arranjar colocação para alguns desempregados? .. Não aparece um arrojado empresário que arrisque uns contos de reis num giro de experiência pelo Império Colonial? [… ] E arriscavam tudo com as tournées ao Brasil!”

E continua José Carlos Alvarez

A primeira referência propriamente teatral exis­tente no acervo do Museu Nacional do Teatro é um bonito Programa do Teatro Varietá, de Lourenço Marques, anunciando a presença da Companhia Filomena Lima·Adelina Fernandes, em 1925, com a revista Rez-Vez, “ampliada com números novos e fadoseguitarra” por Adelina Fernandes(1896-1983), actriz e fadista muito querida do público lisboeta”.

Mas mais à frente o autor refere que

Mantendo o teatro de revista e a comédia ligeira como formatos quase exclusivos, assistimos assim à deslocação periódica e organizada de grandes companhias daqueles géneros teatrais com pro­duções próprias ou êxitos recentemente levados à cena em Lisboa e no Porto, e, através delas, ao regresso ou à passagem por terras africanas (alguns, bem mais que uma vez) de uma quantidade ímpar de grandes nomes do nosso teatro”.

Uma vez que não encontrámos qualquer referência à visita de uma Companhia de Teatro Portuguesa à Índia até 1961, conclui-se que a influência da revista portuguesa no Tiatr terá surgido de forma indirecta, a partir da divulgação trazida das outras colónias pelos frequentes contactos com o Estado da Índia, designamente a partir de Moçambique. Mas esta é matéria que merece aprofundamento que não cabe nestas páginas.

Como já referimos quando mostrámos uma panorâmica geral das diversas orquestras que animavam a vida cultural em Goa, estes grupos adaptavam-se a qualquer espectáculo, profanos ou sagrados, ligados à arte ou à religião, cabendo aos músicos adaptar os temas à função para que eram requisitados.

Entre os diversos actos ou pordhe do Tiatr existe muita música (em konkani denominada Kant), onde a orquestra interpreta temas ligados ou não ao enredo da peça, incluindo variedades como temas em voga, mandós ou dulpodas ou mesmo peças de Verdi.

Seguindo a ideia de Lucazinho Ribeiro, são interlúdios musicais que servem para os actores mudarem de roupa e reajustar o cenário.

Um dos músicos que mais contribuiu para a divulgação do Tiatr foi Chris Perry. Nascido em 1928 como Christovam Pereira, introduziu temas tradicionais de dança dekni e cumbi no Tiatr, muitas vezes dando-lhes roupagem de jazz. Chegou mesmo a compor peças com o pseudónimo Bab Pinto, com realce para o drama Bekar Patrao e Adeus (que foi interpretado por músicos de jazz no seu funeral em 2002). Com a ajuda da voz da sua companheira Lorna chegou a ganhar o prémio de melhor compositor em konkani. Chris perry também produziu Bhuiarntlo Munis (The Man from the Caves), o primeiro filme a ser produzido em Konkani.

Muitas vezes a peça era representada em português e konkani e uma das orquestras mais disputadas era Alex & his Jolly Boys. Ao contrário das operetas ou do teatro de revista, onde a as contribuições da música, da dança e do teatro aparecem numa atuação global, no Tiatr cabia às orquestras preencher os espaços entre os diversos actos, que duravam cerca de 15 minutos, totalizando entre duas e três horas de espectáculo. Muitas vezes o público ia mais pela actuação da orquestra que pelo drama, e era o que se passava com os Alex & his Jolly Boys.

Significativo que numa das poucas obras que se debruça sobre o Tiatr, When the curtains rise de André Rafael Fernandes, apenas encontramos referência a uma banda ligada ao Tiatr:

Bebdo. Handbill in Konkani and Portuguese. Saturday, February 13, 1943 at Sri Damodar Vidiabhuvan, Comba, Margao. Band; Alex and his Jolly Brothers. Post-Script: Visada pela Censura.

Mostramos um anúncio publicado no Jornal da Noite de 1956, bem demonstrativo de como o Tiatr abrangia as comunidades de língua portuguesa (minoritária) e de konkani: a organização de dois espectáculos com a mesma peça no Cine Metropole de Margão – Mundo Ingrato (em konkani Onupcari Sounsar), escrito e encenado por Dioguinho de Melo – mas com temas musicais distintos, nos dois casos com Alex and his Jolly Brothers a darem apoio instrumental. A língua utilizada era o konkani mas existia uma sinopse em português.

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Com ou sem altifalantes as peças decorriam entre petromaxes que criavam subtis sombras no chão do palco de bambu. O trompete, os dois saxofones, o banjo e o violino acompanhavam a melodiosa voz (todos desejavam imitar Alfred Rose, The Melody King of Goa…) que preparava a assistência para as esperadas cenas que se iriam seguir, sempre acompanhadas de palmas, gritos, e outras “interferências” do público onde se incluem apupos e vaias com saquinhos de amendoim. Frequentemente, todas estas cenas decorrem num cenário que demonstra incongruências próprias duma simbiose Oriente/ Ocidente nascida da cultura popular e não erudita: o ambiente hindu do palco, com elefantes, pavões e imagens de deuses dourados, serve de cenário para dramas de conteúdo cristão…

Merece especial realce a peça de John Claro Fernandes, escrita no Algarve em 1979 após ter assistido a uma noite de fados, ‘Portugueze Kolvont’, onde se conta a história de uma rapariga que é levada a trabalhar num bar a cantar fados de Coimbra, sem perder a sua virtude e dignidade…

Actualmente esta arte encontra-se plenamente reconhecida e acarinhada, existindo mesmo a Tiatr Academy of Goa.

Nalini Elvino de Sousa, investigadora multifacetada ligada à presença da cultura Portuguesa em Goa, filha de pais goeses mas que residiu em Portugal durante muitos anos, é um bom exemplo duma nova geração que não se limita a olhar para o passado, preferindo construir um futuro onde o abraço entre culturas é um privilégio. Esperamos, com muita expectativa, pela sua tese de mestrado, dedicada ao Tiatr!

Excerto do conto Tyatr, retirado do livro Monção de Vimala Devi, 1963:

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Joaquim Correia
Joaquim Correia
“É com prazer que passo a colaborar no jornal Regiões, até porque percebo que o conceito de “regiões” tem aqui um sentido abrangente e não meramente nacional, incluÍndo o resto do mundo. Será nessa perspectiva que tentarei contar algumas histórias.” Estudou em Portugal e Angola, onde também prestou Serviço Militar. Viveu 11 anos em Macau, ponto de partida para conhecer o Oriente. Licenciatura em Direito, tendo praticado advocacia Pós-Graduação em Ciências Documentais, tendo lecionado na Universidade de Macau. É autor de diversos trabalhos ligados à investigação, particularmente no campo musical

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